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Fisioterapeutas estudam como ventilação mecânica pode auxiliar no tratamento de Covid-19

Pesquisadores da UFPR publicaram orientações sobre cuidados com a fisioterapia em UTI pediátrica durante a pandemia no Journal of Medical and Clinical Research #AgenciaEscolaUFPR

Por Bruno Caron
Edição: Chirlei Kohls

O uso do ventilador mecânico já é comum em grandes cirurgias, quando o paciente precisa ficar sedado, mas na pandemia de Covid-19 a necessidade de usar o aparelho para auxiliar na respiração é ainda mais frequente. Uma equipe de profissionais da saúde que trabalha para salvar vidas na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) pediátrica do Complexo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (CHC-UFPR) publicou um editorial de recomendações na revista científica Journal of Medical and Clinical Research.

O principal objetivo da publicação é orientar os profissionais da saúde para melhorar a qualidade da intubação de pacientes que precisam de ventilador mecânico e sobre as especificidades de uma UTI pediátrica no contexto da pandemia. “Buscamos relatar quais evidências temos para atuação dos fisioterapeutas nesse cenário da Covid-19 e também nortear nossos colegas na área da fisioterapia aplicada à pediatria. A pediatria em terapia intensiva é uma área que precisa de mais pesquisas, pois não tem tantas publicações e evidências como a fisioterapia aplicada na terapia intensiva em adultos”, diz a pesquisadora Camila Ribas, doutoranda em Fisioterapia na UFPR.

Pesquisadores da UFPR relatam evidências para atuação dos fisioterapeutas na pediatria no cenário da Covid-19. Fotos: Divulgação

A recomendação publicada na revista internacional indica que o fisioterapeuta precisa trabalhar a via aérea do paciente, retirar a secreção pulmonar e monitorar a quantidade de oxigênio para tirá-lo o mais rápido possível do ventilador. “Já se sabe que muito oxigênio faz mal. O médico colhe um exame que mostra a quantidade de oxigênio no sangue. O fisioterapeuta reduz esse suporte de oxigênio, diminuindo a quantidade de pressão do ventilador e monitorando a melhora ou a piora desse paciente”, explica Valéria Neves, também doutoranda em Fisioterapia na UFPR.

A especificidade de trabalhar com crianças está no fato de que elas ainda estão no processo de desenvolvimento de seus órgãos e o pulmão é mais suscetível a precisar do ventilador mecânico em caso de doença pulmonar, como a Covid-19. “E mesmo que seja mais raro desenvolver a doença com quadros mais graves, existem crianças com doenças crônicas respiratórias e a Covid-19 nesses casos é um agravante”, acrescentam as cientistas.

Além de Camila e Valéria, são autores do artigo os pesquisadores Emilly de Souza, residente da área de Saúde da Criança na UTI do CHC-UFPR; doutora Adriana Koliski, médica e chefe da UTI; e doutor José Eduardo Carreiro, professor da UTI pediátrica e orientador das pesquisas.

Como funciona a ventilação mecânica

Valéria Neves trabalha diretamente com ventilação mecânica na UTI pediátrica do CHC-UFPR e esse também é seu tema de pesquisa no doutorado em Fisioterapia na Universidade. O estudo dela consiste no desenvolvimento de um sistema que cuide da qualidade da intubação traqueal no paciente para que o tubo não saia do lugar enquanto está ventilando o pulmão.

Em cirurgias com a pessoa sedada ou em casos de insuficiência respiratória é necessário fazer o procedimento para que o ventilador mecânico auxilie na respiração. O tubo entra pela boca do paciente, passa pela garganta e vai para traqueia. E é nesse tubo que é adaptado o ventilador. Durante a pandemia de coronavírus, o procedimento tornou-se ainda mais comum e importante para o tratamento do pulmão comprometido e melhora da respiração.

A fisioterapeuta Valéria Neves desenvolve durante o doutorado um sistema que cuida da qualidade da intubação traqueal no paciente

Durante o uso de ventilador mecânico pode ocorrer a chamada extubação não planejada. A extubação acontece quando esse tubo sai do lugar e o paciente corre o risco de não respirar. Isso pode ocorrer quando o paciente acorda, se mexe ou até mesmo por alguma intervenção médica, o que pode resultar inclusive em morte. “A gente usa a ocorrência da extubação na UTI como um indicador de qualidade e isso é mundial. Por isso é tão importante”, afirma a fisioterapeuta.

Os pesquisadores explicam que a extubação é perigosa, porque além de oferecer risco à saúde do paciente, gera riscos aos profissionais da saúde e familiares. “Quando o tubo sai do lugar é o momento em que mais são produzidos aerossóis, porque o paciente espirra ou tosse. O aerossol é a partícula que contém o vírus e o coronavírus, no caso da Covid-19, é altamente contagioso”.

Em crianças a situação é mais recorrente e ainda mais complicada, porque no caso de um bebê, por exemplo, ele não sabe que o tubo pode sair do lugar caso se mexa. Orientar sobre a qualidade na UTI para evitar a perda do tubo é outro objetivo da publicação das pesquisadoras. “A nossa ideia é estabelecer um fluxo, um processo de trabalho em que se tenha um menor risco disso acontecer na UTI. Isso é importante inclusive do ponto de vista de custo. Nos Estados Unidos já foi contabilizado que são milhões de dólares que a gente paga a mais por acontecer a extubação”, relata Valéria.

Covid-19 e respiração
mecânica 
por mais tempo

Devido ao tempo que os pacientes ficam intubados, sedados e imobilizados a musculatura pode atrofiar. Inclusive porque a Covid-19 deixa os pacientes no ventilador mecânico por um período maior. O tempo médio para outras doenças que era de cinco dias, agora é de 15 a 20 dias. O fisioterapeuta em UTI também trabalha a parte motora desses pacientes, porque sem a intervenção desse profissional essas pessoas vão demorar mais tempo para voltar às atividades normais. “O objetivo da fisioterapia é reduzir o tempo que o paciente vai ficar em terapia intensiva”, diz Valéria.

Camila explica através de uma experiência prática com um bebê de apenas 28 dias que contraiu Covid-19 na UTI e precisou ficar quatro dias em ventilação mecânica a importância da profissão e de uma equipe multidisciplinar bem treinada no hospital. “Agora com a pandemia e o manejo dos aparelhos de ventilação mecânica e com os protocolos de mobilização precoce nas UTIs, a fisioterapia realmente pode mostrar o trabalho numa unidade de terapia intensiva”.

As pesquisas realizadas pelas fisioterapeutas também resultaram em um projeto de inovação chamado de “Gestão de qualidade: sistema de vigilância extubação não planejada”. A ideia foi para o concurso Inovação no Setor Público 2020 da Enap (Escola Nacional de Administração Pública) e está entre os seis finalistas ao prêmio principal depois de ser selecionado entre mais de 300 projetos. O sistema busca monitorar o paciente para melhorar a qualidade da respiração e evitar que o tubo saia do lugar.

Essa reportagem é resultado da ação Banco de Pautas Covid-19, da Agência Escola UFPR

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