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Arte e ciência, razão e intuição: conheça a relação entre esses campos e a produção artística na UFPR

Neste Dia Mundial da Arte, professores explicam como arte e ciência se complementam e esclarecem como acontece a pesquisa artística na Universidade, inclusive na pandemia #AgenciaEscolaUFPR

Por Isabela Stanga
Sob supervisão de Chirlei Kohls

“Arte e ciência se encontram na humanidade. Não existe uma humanidade sem a ciência e muito menos sem a arte, pois ambas são maneiras de explicar o mundo e a existência humana, além de produzirem conhecimento sobre a realidade”. Como esclarece a professora do Departamento de Artes e vice-diretora do Setor de Artes, Comunicação e Design (Sacod) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Stephanie Dahn Batista, existem mais semelhanças entre arte e ciência do que normalmente se pensa. Uma delas: ambas são produzidas na Universidade.

Existem diferentes vertentes de produção e de estudos artísticos na academia, como nas áreas de Música e Artes Visuais. Na UFPR isso também acontece. Diferente de um artista independente, os universitários devem embasar seu trabalho em um fundamento teórico e em um método. Neste Dia Mundial da Arte, conheça mais sobre a produção artística na Universidade e o que dizem artistas-pesquisadores acerca da relação entre arte e ciência.

Como ciência e arte se complementam?

Assim como a ciência, as obras de arte mesclam intuição e racionalidade. Na foto, instalação audiovisual Símbolos, de Roseane Yampolschi e Clayton Mamedes, em 2018. Fotos: Norton Dudeque/Reprodução

De acordo com o professor de Artes Visuais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) André Parente, os estudos são indispensáveis para a produção de arte. “A pesquisa enriquece não apenas meu trabalho, mas a capacidade que eu tenho de situar o trabalho dentro do campo da arte e do mundo”, elucida.

A professora Luana Veiga, do Departamento de Artes da UFPR, afirma que, para analisar as pesquisas artísticas, é preciso diferenciar os estudos em arte dos sobre arte. “No estudo sobre arte, a obra finalizada é o objeto de investigação, você olha para um fenômeno artístico pronto e determinado. Na pesquisa em arte, o desenvolvimento de um trabalho de arte é a própria pesquisa. É o procedimento de um pintor durante a concepção da obra, seus pensamentos, a alteração de sua ideia inicial no decorrer da pintura, por exemplo”, explica.

Os estudos em e sobre arte obedecem a métodos específicos, assim como as pesquisas científicas. Mas, como aponta Luana, a metodologia varia conforme o projeto. A pesquisa sobre arte segue regras mais rígidas de investigação, parecidas às científicas, enquanto a pesquisa em arte pode misturar bases incoerentes e não chegar a um resultado objetivo, para a professora.

“A arte não busca provar nada, ela ilumina uma verdade mais profunda e visceral do ser humano, acessa lugares mais secretos de nossas buscas por sentido, mas não necessariamente traz respostas a nossas angústias”, complementa a professora de Música da UFPR Silvana Scarinci.

Para Roseane Yampolschi, também professora de Música da Universidade, a metodologia em arte, em seus trabalhos artísticos, se dá de maneira orgânica. Deste modo, segundo Roseane, as metodologias em arte também podem ser compreendidas como “formas mais intuitivas de elaborar o material, em que ideias, elementos de estruturação, formas de dar sentido à obra emergem aos poucos”.

A professora Silvana explica que a arte não precisa necessariamente trazer respostas às provocações que causa. Foto: Silvana Scarinci/ Arquivo Pessoal

Mesmo que o método artístico possa ser mais livre que o científico, a separação entre racionalidade na ciência e intuição na arte não é correta, segundo as pesquisadoras. As quatro explicam que, assim como o cientista utiliza da lógica e da razão em suas investigações, ele também precisa de criatividade para desenvolver suas teorias. Da mesma forma o artista. Para realizar sua obra de arte, ele recorre à técnica, não só à subjetividade.

Além disso, a professora Silvana, que estuda as diferentes práticas musicais em seu contexto cultural, reconhece que a ciência pode tentar entender os efeitos da arte, por meio de metodologias de análise. “A música transita pelo campo  matemático, base de sua construção racional. O conhecimento de sua estrutura objetiva, como notas, escalas, tonalidades são de origem lógica”, expõe.  

Outra relação possível entre os dois campos de produção é que ambos explicam o mundo, cada um à sua maneira. “Toda área científica produz um conhecimento específico sobre a existência humana e a arte faz isso também dentro dos seus próprios modus operandi”, pontua Stephanie. Dessa maneira, a arte e a ciência produzem conhecimento – um mais subjetivo e outro mais objetivo, mas que, para a professora, não devem ser desvinculados. 

Para saber mais sobre a relação entre arte e ciência, confira a seguir o boletim Volume UFPR sobre o tema:

 

Os estudos artísticos na UFPR

Na Universidade Federal do Paraná, há exemplos de estudos tanto sobre como em arte. O trabalho da professora Stephanie, historiadora de arte, é do primeiro estilo. A pesquisadora explica que, dentro de sua linha de investigação, coexistem diferentes vertentes teóricas e abordagens metodológicas, assim como os variados paradigmas presentes na ciência. 

O trabalho da professora Stephanie Dahn e de suas alunas rendeu uma exposição no Museu Oscar Niemeyer, entre 2017 e 2018. Foto: Felipe Roehrig Pacheco/Divulgação

Stephanie expõe que seu trabalho mescla pesquisa teórica com investigação de obras presentes nos acervos dos museus. Em seu estudo “O corpo no palco de gênero: representações corpóreas de feminilidades e masculinidades na arte brasileira no século XX e XXI”, ela, com ajuda de suas alunas de iniciação científica, uniu teorias dos estudos de gênero a um levantamento qualitativo dos museus públicos de Curitiba.

“Nós analisamos a presença dos corpos humanos masculinos, femininos e andrógenos e encontramos cerca de 700 obras que retratam o corpo humano nu e fazem inscrições discursivas sobre eles”, conta a professora. Um dos desdobramentos deste projeto foi a exposição “Vestidos em arte: os nus nos acervos públicos de Curitiba”, que aconteceu no Museu Oscar Niemeyer entre 2017 e 2018.

O trabalho curatorial de Stephanie, com ajuda de suas alunas, atraiu mais de 87 mil visitantes da exposição. Foto: Fabiana Caldart/Divulgação

Polêmica, a exposição reuniu mais de 87 mil visitantes e apresentou o corpo em sete núcleos temáticos, entre eles o corpo grotesco, o corpo em gênero e o corpo na academia. Segundo a professora Stephanie, a pesquisa lhe inspirou seu novo projeto de trabalho, que investiga a presença das mulheres nos circuitos de artes visuais.

A professora Luana realiza sua pesquisa ao mesmo tempo em que desenvolve suas performances. Foto: Luana Veiga/Arquivo Pessoal

Na vertente em arte, a professora Luana estuda Poéticas Visuais com foco em videoarte e vídeo performance. Desse modo, ela investiga a relação entre a teoria das artes visuais (da qual a performance faz parte) e a teoria do cinema. Como é um estudo em arte, a professora pesquisa enquanto produz suas obras, ou seja, analisa de que forma seus pensamentos, os textos que lê, os trabalhos de referência, entre outros fatores alteram o resultado final da vídeo performance.

“Dentro da Universidade, estamos inseridos em um processo histórico de produção de conhecimento: dialogamos com ele, não temos como ignorá-lo. Então, além de nosso processo criativo, precisamos inseri-lo dentro de uma discussão contemporânea sobre o campo”, explica.

Ainda na UFPR, a professora Silvana desenvolve sua pesquisa em Musicologia/Etnomusicologia e trabalha com materiais históricos. Ela foi responsável pela restauração da ópera “Ariane et Bacchus”, composta em 1696 por Marin Marais. “Encontrei-a numa biblioteca francesa: uma obra de primeira grandeza do repertório operístico que estava esquecida. Graças a um trabalho meticuloso, com o apoio de meu laboratório de pesquisa e performance, a partitura foi restaurada e pode voltar aos palcos, aqui em Curitiba (2016), em Chicago (2017) e finalmente em sua casa, em janeiro de 2021, em Paris”, lembra.

Já a professora Roseane Yampolschi tem dois focos principais de pesquisa sobre/em música. Ela estuda a relevância do gesto para a criação, tendo em vista uma perspectiva musical incorporada; e questões que tratam da estética musical/poéticas contemporâneas e interdisciplinares de criação artística.

Instalação audiovisual  “nem tudo é provisório”, de Roseane Yampolschi e Eliana Borges, em 2010 – ao fundo, Roseane Yampolschi. Foto: Eliana Borges/Arquivo Pessoal

“Meu estudo não é uma investigação teórica sobre questões analíticas na música, de cunho formal. Meu foco maior é a investigação de como o gesto, do ponto de vista de sua incorporação, impulsiona e revigora o trabalho criativo. E também como essa incorporação tende a criar abordagens poéticas ou estéticas alternativas, por vezes mais complexas, desafiando os modos convencionais”, revela.

Distância e tecnologia: surgem novos desafios

Devido à pandemia de Covid-19, o estudo de arte passou por uma adaptação, assim como as demais áreas do conhecimento. A professora Stephanie aponta que, para o levantamento de acervos por estudiosos acontecer com o distanciamento social, os museus disponibilizaram as obras virtualmente. Ela cita também que algumas organizações criaram exposições online para aproximar o público e divulgar sua produção.

As tecnologias de informação são indispensáveis para a pesquisa na pandemia, conforme a professora. “Agora, as pesquisas só são possíveis desde que a gente tenha os catálogos digitais dos acervos, isso é algo que possibilita uma certa continuidade da pesquisa”, conta.

Na música, a professora Silvana afirma que a pandemia causou enormes estragos para o cenário musical no Brasil e no mundo, por causa do cancelamento de shows, concertos, turnês e ensaios. “Tenho visto músicos passarem por situações dramáticas”, relata. Para ela, as redes sociais, as lives e apresentações virtuais incentivadas por entidades culturais têm melhorado um pouco essa situação.

O professor André Parente explica que, com a UFRJ fechada, grande parte das atividades estão sendo feitas de casa ou na rua. “Embora estejamos ensinando via sistemas remotos, e estejamos, na maioria das vezes, trabalhando em nossas casas e ateliês, de vez em quando usamos as ruas como sempre fizemos. Claro que fazemos isso seguindo todas as regras de higiene e distanciamento”, ressalta. Para ele, nesse momento, há mais artistas atuando também nas redes sociais.

O professor André Parente, da UFRJ, aponta que a tecnologia está cada vez mais integrada à arte, fazendo parte tanto de sua produção quanto de sua distribuição. Foto: André Parente/ Arquivo Pessoal

Pesquisador em arte e novas mídias, André conta que a tecnologia de comunicação alterou as maneiras de fazer arte. “Hoje existe arte virtual, arte interativa, arte imersiva, arte generativa, arte digital, arte telemática, e agora as NFTs (non-fungible token), que são meios para gravar informações em uma blockchain (a mesma tecnologia empregada nas criptomoedas) e vendidas na rede”, exemplifica. Segundo o professor, a forma, o conteúdo e a circulação da arte atual dependem cada vez mais dos dispositivos digitais.

Na UFPR, a tecnologia foi usada para estimular a produção artística na pandemia. Com a suspensão do calendário acadêmico em março de 2020, as aulas foram pausadas. A professora Luana relata que os professores de Artes Visuais decidiram, então, criar um blog para entrar em contato com os estudantes. “Fazíamos postagens com provocações para os alunos continuarem produzindo”, diz.
Com o início do ciclo remoto de aulas, Luana conta que somente foram ofertadas disciplinas que pudessem ser ministradas à distância. “Desenho, pintura, eventualmente você precisa do ateliê, mas você consegue fazer de casa. Agora, escultura, cerâmica e gravura, sem condições”, ressalta.

O blog, portanto, também se tornou uma ferramenta para divulgar os trabalhos dos alunos por meio de exposições virtuais. “Em nosso campus, temos o costume de fazer exposições de semestre ou de final de disciplina. Como não podemos ir lá, encontramos outras formas de dar visibilidade à produção que foi realizada, usando as plataformas de internet, coisa que era permitida antes, mas que a gente não fazia com frequência”, observa.

Já na Pós-graduação em Música, a professora Roseane relata que os professores, na pandemia, puderam participar de eventos nacionais e internacionais online. Os estudantes, por sua vez, puderam aproveitar o maior uso das redes sociais para dar visibilidade às suas pesquisas. Por outro lado, a perda de produtividade, o cansaço mental e os casos de Covid-19 entre professores e estudantes prejudicaram suas pesquisas.

Parar, analisar e refletir

“No momento em que mais de 3 mil pessoas morrem todos os dias no Brasil, a arte nos mostra que o mundo talvez não seja do jeito que percebemos”, reflete a professora Luana Veiga.

Para gerar impacto, a arte não exige uma verbalização, segundo Stephanie. Para ela, o pensamento visual transmitido pelas pinturas, esculturas, instalações e outras formas de artes visuais gera relações que não são óbvias para o observador. “As obras nos mostram o possível e o impossível e formam um questionamento sobre esse tipo de explicação e de produção de conhecimento sobre o mundo. A arte nos faz pensar”, reconhece.

Para as professoras, o papel da arte é provocar sentimentos nos espectadores e não transmitir verdades absolutas. Foto: Felipe Roehrig Pacheco/Divulgação

“A arte atinge os domínios do sentimento, das paixões, do inconsciente, sem tentar explicar ou mesmo traduzir em palavras, torná-los compreensíveis à razão”, complementa a professora Silvana. Segundo as pesquisadoras, não é papel da arte trazer as respostas prontas, mas deixá-las à interpretação do observador ou ouvinte.

Além do impacto sensível, Luana Veiga aponta que a arte também apresenta expressiva ação econômica. Ela explica: quando o público vai a um show de música, o dinheiro do ingresso paga os artistas, mas também todos os profissionais envolvidos na organização, gerência e até limpeza do local. A mesma coisa acontece em cinemas, exposições de arte, espetáculos. “Existe um impacto econômico da arte importante, tanto que cidades como Paris, Londres, Nova Iorque são reconhecidas por seus circuitos artísticos. Até mesmo no Brasil, Tiradentes e Paraty vivem da arte”, exemplifica.

“Uma obra que muda nossa maneira de ver o mundo, muda também nossa vida”, pontua André Parente, professor da UFRJ. Foto: André Parente/Arquivo Pessoal

De acordo com André Parente, do ponto de vista da produção, a arte representa hoje algo em torno de 10 a 15% do produto interno bruto (PIB) em países desenvolvidos. Para o professor, a arte não vale apenas seu valor de mercado, pois “uma obra que muda nossa forma de ver o mundo, muda também nosso modo de vida, nossa maneira de comer, de se vestir, de se relacionar com as outras pessoas, nossa relação com a natureza e assim por diante”.

O objetivo da arte, mais do que transmitir uma ideia, é provocar o espectador. Como diz a professora Stephanie, olhar uma obra de arte é parar, analisar e refletir sobre o que ela lhe desperta. “O assombro, o choque, o sentido de lacuna, o deleite, o estarrecimento que brota frequentemente, todos esses modos de vivenciar a arte deixam um espaço vazio que deverá ser reinscrito por cada um de nós”, completa Roseane.

A Agência Escola UFPR preparou uma série de imagens para comemorar este Dia Mundial da Arte. Você pode baixá-las abaixo e compartilhá-las em suas redes sociais! (Ilustração por Ana Beatriz Polena Prendin, arte de Gustavo Conti Dias e texto de Raphaella Concer Felisbino e Kamilla Schreiber).

Arte da imagem de destaque da matéria: Ana Beatriz Polena Prendin e Gustavo Conti Dias

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Sobre a Agência Escola UFPR

Agência Escola de Comunicação Pública e Divulgação Científica e Cultural da UFPR é um projeto técnico-científico do Setor de Artes, Comunicação e Design (SACOD) a partir de um convênio com a Funpar e tem na Superintendência de Comunicação e Marketing (SUCOM) um espaço privilegiado para realização do trabalho.

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