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“Máscaras de tecido ainda são eficazes?”: cientistas da UFPR esclarecem dúvidas da sociedade em momento crítico da pandemia

Além do uso de máscaras, os pesquisadores também respondem questões sobre vacinas, cuidados básicos, contaminação e reinfecção pelo novo coronavírus #AgenciaEscolaUFPR

Por Isabela Stanga
Sob supervisão de Chirlei Kohls

Diante do momento crítico da pandemia no Brasil, com mais de 400 mil mortes pela doença, cientistas da Universidade Federal do Paraná (UFPR) responderam a perguntas enviadas pela sociedade sobre a Covid-19, a fim de reforçar os cuidados dos brasileiros. A terceira onda da Covid e as novas variantes, responsáveis por lotar os hospitais brasileiros neste ano, reacenderam as dúvidas da população sobre a doença. Dessa forma, mais de 40 perguntas foram recebidas pela Agência Escola UFPR, com participantes de diferentes regiões do país, e esclarecidas por onze pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento.
As perguntas fazem parte da série de reportagens Pergunte aos Cientistas, da Agência Escola UFPR, que busca aproximar o conhecimento científico da população. Com o tema “Cuidados redobrados: momento mais crítico da pandemia”, a ação deste mês aborda cuidados básicos para evitar a Covid-19, uso de máscaras, vacinação, contaminação e reinfecção pelo coronavírus, além de outros aspectos da doença questionados pela sociedade.
“Até que a vacinação em massa não ocorra no mundo todo, a principal forma de proteção individual e coletiva se dará por esses cuidados: distanciamento social, uso de máscara e higiene de mãos”, reforçam os cientistas.
Participaram desta edição do Pergunte aos Cientistas os pesquisadores Emanuel Maltempi de Souza, professor do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular e presidente da Comissão de Enfrentamento e Prevenção à Covid-19 da UFPR; Alexandra Acco, Cristina Jark Stern e Juliana Geremias Chichorro, professoras do Departamento de Farmacologia; Carlos Henrique Alves Jesus e Maria Carolina Stipp, pós-graduandos do Programa de Farmacologia da UFPR; Patrícia Dalzoto, professora do Departamento de Patologia Básica; Juliana Bello Baron Maurer e Luciano Henrique Campestrini, pesquisadores do Núcleo Paranaense de Pesquisa Científica e Educacional de Plantas Medicinais (NUPPLAMED-UFPR); Geraldo Picheth, docente do Departamento de Análises Clínicas; e Roseli Wassem, professora do Departamento de Genética da Universidade. Confira abaixo as respostas dos cientistas.

Doações para hospitais

Em meio à superlotação dos hospitais, a campanha O Amor Contagia, gerenciada pela Fundação de Apoio da Universidade Federal do Paraná (Funpar), arrecada doações para as entidades paranaenses. Agora em 2021, o foco do projeto são os hospitais filantrópicos e públicos do estado. Entre os materiais doados pela ação estão respiradores, luvas, álcool em gel, viseiras de proteção, entre outros. Os recursos para a compra do material podem ser doados por empresas ou pessoas físicas, paranaenses ou não, no site da iniciativa.
“Os hospitais pedem socorro. Devemos proteger os profissionais de saúde, que atuam todos os dias na linha de frente contra o coronavírus. Qualquer valor faz a diferença e qualquer pessoa pode ajudar, é um projeto de todos nós”, expõe Jackson Gomes Júnior, gerente de Comunicação da Funpar.

“Qual a melhor maneira de se proteger em relação ao álcool e à máscara? Todas as pessoas devem usar máscara e face shield?” (Giovanna Ferrari, 18 anos, estudante, Criciúma-SC)
Cientistas UFPR – Olá, Giovanna. A lavagem das mãos é uma ferramenta muito importante e eficaz para prevenir a transmissão do vírus. Os órgãos de saúde recomendam a lavagem das mãos com água e sabão sempre que possível. No entanto, quando a lavagem das mãos for inacessível, recomenda-se o uso de álcool em gel (com pelo menos 60% de álcool). O álcool em gel deve ser aplicado e espalhado de modo a cobrir as mãos e dedos (incluindo as unhas) até que a pele fique seca.
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) as máscaras são recomendadas como medida de supressão da transmissão e ferramenta para salvar vidas. A OMS indica os seguintes passos para o uso de máscara:
1) Lavagem das mãos (ou uso de álcool em gel) antes de colocar a máscara, assim como antes e depois de retirá-la ou após qualquer momento que você tocá-la.
2) Usar a máscara de forma a cobrir totalmente o nariz, a boca e o queixo.
3) Enquanto estiver em uso, evitar tocar a máscara.
4) Quando retirar ou trocar a máscara, ela deve ser colocada em sacola plástica.
5) Máscaras de tecido devem ser lavadas todos os dias, e descartadas em lixo adequado se forem máscaras médicas.
6) Máscaras com válvulas não devem ser usadas, pois se quem a usa estiver contaminado poderá liberar partículas virais pela válvula e contaminar outras pessoas.
As máscaras devem ser utilizadas em locais fechados e com pouca ventilação (transporte público, aeroportos, local de trabalho etc). Além disso, elas devem ser utilizadas independentemente da distância entre as pessoas. Máscaras muito largas para o rosto, máscaras feitas de materiais que dificultam a respiração ou material com frestas, ou ainda máscaras contendo apenas uma camada de tecido devem ser evitadas, pois não protegem suficientemente e dão a sensação de “falsa” proteção.
As máscaras podem não ser necessárias quando se está sozinha em local aberto ou em casa com os familiares que moram com você. No entanto, algumas áreas abertas para público exigem o uso de máscara e para isso é necessário verificar o que cada local ou cidade estipula para esse caso.
Os face shields não são substitutos para as máscaras. Apesar de permitidos como uma ferramenta adicional para a proteção dos olhos, eles não cobrem completamente a boca e o nariz contra gotículas respiratórias. Devem ser utilizados juntamente com máscara e nunca sozinhos. São uma proteção a mais, mas não há necessidade de todas as pessoas utilizarem, as máscaras adequadas ainda são a proteção facial mais recomendada.

“Considerando a tríade de cuidados que devemos ter: distanciamento, máscara, álcool gel (ou higienizar as mãos), entretanto, pelas contingências da vida, por vezes um daqueles cuidados é despassado, ainda que outros se façam presentes. Pergunto: qual o vetor que mais pode propagar o Coronavírus? A) manter-se em proximidade com outras pessoas, ainda que de máscara; B) distanciamento, mas sem o uso de máscara, higienizando as mãos; ou C) deixar de higienizar as mãos (com sabão ou álcool gel), ainda que com distanciamento e máscara? O fundamento da pergunta é que temos observado tantas pessoas guardando estreito alinhamento à tríade citada e mesmo assim se contaminam.” (Sergio Roberto Maluf, 57 anos, advogado, analista de sistemas e estudante do curso de Informática Biomédica da UFPR, Curitiba-PR)
Cientistas UFPR – Olá, Sergio. Desde o início da pandemia, os órgãos de saúde ao redor do mundo, como OMS e CDC (Center for Disease Control and Prevention dos Estados Unidos), alertam para o controle pessoal da transmissão através da tríade que mencionou: distanciamento social, uso de máscara e higiene de mãos. Até que a vacinação em massa não ocorra no mundo todo, a principal forma de proteção individual e coletiva se dará por esses cuidados. Seu questionamento é pertinente e permite alguns desdobramentos:
Situação A: não se deve manter proximidade com pessoas neste período que não sejam de convívio familiar, mas se isto for inevitável, o uso de máscara deve ser feito, pois reduz o risco de espalhamento de aerossóis caso uma das pessoas esteja contaminada. Porém, vale lembrar que se a máscara estiver frouxa, com aberturas laterais ou for muito fina (uma camada), permitindo a passagem de ar para dentro e fora da máscara, a proteção diminui. Por isso, o uso correto de máscaras é uma arma importantíssima contra o vírus. Veja a reportagem recente publicada pela UFPR sobre os diferentes tipos de máscaras clicando aqui.
Situação B: praticar um bom distanciamento de outras pessoas que não são de seu convívio, tanto em espaços internos quanto externos, representa manter-se cerca de 1,5 a dois metros de distância. Distanciamento sem uso de máscara pode ser admitido em ambientes abertos, onde o risco de contaminação é menor. Porém, mesmo nestes locais, o uso de máscara é recomendado, pois os vírus “viajam” pelo ar em micropartículas, atingindo distância maior do que quando presentes em gotículas respiratórias.
Situação C: o risco nesta situação é menor pelo uso de máscara e distanciamento, pois a principal via de contaminação é aérea, por aerossol e pelo contato próximo com pessoas contaminadas. Neste caso, a contaminação poderia ocorrer caso o indivíduo tocasse em superfícies contaminadas e levasse a mão aos olhos, que são portas de entrada do vírus. Porém, já se reconhece como pequeno o risco de contaminação por esta via (objetos contaminados).
Vale ressaltar que as novas variantes virais, como a P.1 (ou de Manaus), são mais infectantes e que pessoas que estão contaminadas por elas têm uma carga viral até 10 vezes maior do que as contaminadas pelas cepas originais. Esse é um fator importante, que pode justificar o fato de pessoas se contaminarem mesmo diante dos cuidados que você mencionou. Portanto, lembre-se de que o distanciamento social deve ser praticado em combinação com outras ações preventivas diárias para reduzir a propagação da Covid-19, incluindo o uso de máscaras, evitar tocar o rosto com as mãos não lavadas e lavar frequentemente as mãos com água e sabão por pelo menos 20 segundos.

“Lavar todas as embalagens e alimentos com água e sabão antes de guardá-los (ou antes de colocá-los dentro de casa) é útil no combate à pandemia?” (Daniela Resende Archanjo, 44 anos, professora da UFPR, Matinhos-PR)
“Preciso lavar as compras de verdade?” (Marília, 36 anos, assistente administrativa, Curitiba-PR)
Cientistas UFPR – Daniela e Marília, a dúvida de vocês é pertinente, pois no início da pandemia e ao longo de meses em 2020 a recomendação era higienizar todas as compras ao chegar em casa. Porém, com o decorrer da pandemia, novos conhecimentos sobre a transmissão foram construídos, e atualmente sabe-se que a chance de se contaminar com o SARS-CoV-2 a partir de um objeto, embora exista, é pequena. Não há evidências concretas de casos de Covid-19 em que a infecção tenha ocorrido ao tocar em alimentos, embalagens de alimentos ou sacolas de compras. A principal via de contaminação é aérea, por aerossol e pelo contato próximo com pessoas contaminadas.
Após fazer compras, manusear embalagens de alimentos ou antes de prepará-los e comê-los, deve-se lavar abundantemente as mãos ou usar sanitizantes para mãos (exemplo: álcool gel 70%), pois caso algum produto esteja contaminado, não serão eles que diretamente transmitirão a doença, e sim as mãos que tocarem em embalagens/alimentos contaminados e que forem levadas à boca ou nariz. Assim, lavar as mãos continua sendo uma recomendação básica devido ao risco das mãos no nariz ou na boca criarem um mecanismo de entrada para o vírus SARS-CoV-2, causador da Covid-19. Sempre lave as mãos com água e sabão por pelo menos 20 segundos ou cubra as superfícies das mãos com álcool 70% e esfregue-as até ficarem secas. Esse cuidado substitui a limpeza de todos os objetos ou alimentos que entrarem em sua casa.

“De que forma as novas variantes infectam mais, seria por aerossol? Por que elas são mais contagiosas? Elas ficam mais tempo nos objetos? Se sim, por quanto tempo? Elas têm mais carga viral nas gotículas? Como se prevenir melhor com máscaras, distanciamento etc.?” (Samir Gemha)
Cientistas UFPR – Olá, Samir! Esperamos que esteja bem. As novas variantes são mais infecciosas, porque:
1) O vírus adota conformações que facilitam a sua ligação ao receptor de entrada ACE2, facilitando assim a sua infectividade.
2) O vírus possui uma capacidade superior de enganar o sistema imunológico dos pacientes que já foram infectados anteriormente, favorecendo a reinfecção.
3) Os pacientes infectados parecem ter uma carga viral maior do que com o SARS-CoV-2 original, aumentando as chances de transmissão destes para outros indivíduos.
Quanto ao tempo de permanência em partículas aerossol ou em superfícies, é importante ressaltar que as novas variantes ainda vêm sendo estudadas, e, no momento, não temos informações de modo específico. Contudo, apesar das alterações no RNA viral, a estrutura básica do vírus continua a mesma, ou seja, é provável que apresente as mesmas características do SARS-CoV-2 original quanto ao tempo de permanência em superfícies e em partículas aerossóis. Os tempos de permanência dos vírus são os seguintes em:
– Partículas aerossóis – de 40 minutos a duas horas e 30 minutos.
– Aço inoxidável > 72 horas.
– Plástico > 72 horas.
– Papelão > 24 horas.
– Cobre > 4 horas.
Por fim, para prevenção, os mesmos cuidados devem ser tomados, como uso de máscaras com três camadas de proteção; a lavagem frequente das mãos com água e sabão; o uso de álcool em gel; e o distanciamento social, pois são essenciais para diminuir o risco de contaminação, seja das variantes ou da cepa viral não-mutada.

“Gostaria de perguntar aos cientistas se o vírus permanece ativo nos fios de cabelo e se posso me contaminar ao levar as mãos aos olhos, nariz e boca após tocá-los, mesmo depois de chegar em casa. Em caso positivo, qual a melhor maneira de proteger cabelos longos? Devo me preocupar em mantê-lo preso e/ou lavá-lo toda vez que sair de casa?” (Gabriela Stanga, 19 anos, estudante da UFPR, São José dos Pinhais-PR)
Cientistas UFPR – Cara Gabriela, essa pergunta é muito importante, então vamos lá! Primeiro, não há estudos mostrando por quanto tempo o vírus sobrevive nos cabelos, no entanto isso não é motivo de pânico! Agora nós já conhecemos um pouco mais sobre a transmissão do SARS-CoV-2 e podemos pensar em algumas estratégias para evitar a contaminação, inclusive pelos cabelos.
Como não existe uma única resposta para essa pergunta, podemos pensar em algumas situações. Se você esteve em algum lugar com outras pessoas, mas manteve o distanciamento social e todas as pessoas estavam de máscara, podemos assumir que a chance de haver vírus no seu cabelo é muito baixa. Se lembrarmos que o vírus viaja por aí nas gotículas de saliva, quando essa saliva alcança alguma superfície, principalmente porosa, ela logo seca, deixando o vírus fragilizado e exposto às condições ambientais. Por exemplo, um estudo publicado na revista The Journal of Infectious Diseases em 2020 mostrou, em condições de laboratório, que uma luz que simulava a luz solar era capaz de inativar o vírus em cinco minutos. Isso significa que, em ambientes abertos e expostos à luz solar, a chance do vírus ficar viável nos cabelos por muito tempo é baixa. Além disso, apesar de não ser visível a olho nu, é comum alguns cabelos apresentem muitas porosidades, então é possível que o vírus sobreviva por pouco tempo nesse local. Mas é sempre bom lembrar que devemos evitar ao máximo passar as mãos em qualquer superfície, inclusive nos cabelos, e levar aos olhos, nariz ou boca sem antes lavá-las muito bem com água e sabão ou usar álcool 70%. Então, nessa situação você não precisa prender o cabelo ou lavá-lo ao chegar em casa.
Agora, se você frequentar algum ambiente fechado, com muitas pessoas e sem máscara, que é o que temos visto nas baladas clandestinas, que inclusive se tornaram um grande foco de disseminação do vírus, nessa situação é possível sim que, devido à grande quantidade de vírus no ar, uma parte importante vá parar no seu cabelo e que se passar as mãos nos cabelos e depois levá-la ao rosto, você pode se contaminar, sim. Cada vez mais a comunidade científica fala da importância da carga viral na contaminação e no desfecho da doença. Ou seja, quanto mais vírus for expelido no ambiente, maior a chance de contágio e pior o desfecho da doença. Além da carga viral, alguns estudos sugerem que no escuro o vírus permanece vivo por mais de três horas nas partículas de aerossol. E, em ambientes escuros e superfícies não porosas como aço, vidro ou vinil, dependendo da temperatura, o vírus permanece viável por até 28 dias. Então o ideal mesmo é evitar esse tipo de ambiente. Nessa situação sim, ao chegar em casa, tome banho e lave os cabelos. Mas a balada é uma situação extrema, um absurdo pensando em pandemia. Então vamos pensar em algo mais comum do dia a dia, como o transporte público. Infelizmente, em uma pandemia nós temos que considerar todas as pessoas potenciais portadores do vírus. O transporte público não tem muita circulação de ar, circula muita gente, e com o frio chegando, tudo isso piora. Caso alguém espirre ou tenha tossido nesse local e estava sem máscara ou usando-a de forma inadequada (o que não deveria acontecer), esse local vai ficar cheio de vírus. Então, nessa situação, por mais que você se cuide, o ideal é chegar em casa, tomar um banho e lavar os cabelos.
Enfim, as situações são muitas, então o mais importante é usar máscara e ter um álcool 70% sempre com você, assim após tocar em qualquer superfície, você irá higienizar as mãos antes de levá-las ao rosto.

“Eu e minha esposa contraímos a Covid. Assim que saiu o resultado do exame dela, nós nos isolamos e começamos o tratamento. Cada um ficou em um quarto separado. Não senti nenhum sintoma e finalizado o tratamento fizemos o teste sorológico. Foi quando descobri que também tinha tido contato com o vírus, e os testes tanto o meu quanto o dela já indicavam anticorpos em nosso organismo. A minha dúvida é: só moramos nós dois na casa. Que cuidados devemos ter quanto ao uso da máscara, o contato entre nós, tocar nos objetos em que o outro toca, dividir o mesmo quarto como antes e entre outras coisas? Sabemos que os cuidados externos são os mesmos, só que resolvemos não sair de casa.” (Afonso Silva Barros)
Cientistas UFPR – Olá, Afonso! Parabenizamos sua atitude e a de sua esposa de ficarem em casa durante a recuperação, a fim de não colocarem outras pessoas em risco. O tempo recomendado de quarentena é de 14 dias. Quanto ao convívio familiar, isto é, entre você e sua esposa, a recomendação é um isolamento de dez dias após o início dos sintomas. Se o paciente apresentou sintomas graves de Covid, recomendam-se 20 dias de isolamento. Se ela já está recuperada, vocês podem voltar a conviver normalmente, inclusive dividindo o mesmo quarto. Não há necessidade do uso de máscara dentro de casa. É importante ressaltar que alguns sintomas, como perda de paladar e olfato, podem persistir por várias semanas após a recuperação, mas não indicam necessidade de isolamento.
Também é válido salientar que, apesar de ambos terem apresentado sorologia positiva, isto não significa necessariamente proteção contra a doença. Portanto, é muito importante que vocês mantenham as medidas de proteção, principalmente o uso de máscara em locais públicos, distanciamento social e higiene frequente das mãos.

“Minha dúvida é quanto às ofertas de máscaras: qual a mais eficaz, como higienizar e durante quantas horas elas estão realmente protegendo? Quanto à vacina, se ela não garante a prevenção de reinfecção, por que se vacinar? Sou do grupo prioritário e tenho diabetes.” (Liliane M. S. da Silva)
Cientistas UFPR – Olá, Liliane. As máscaras mais eficazes são aquelas com mais camadas ou feitas com materiais menos porosos. As máscaras de tecido podem ser usadas em ambientes abertos, onde não há muitas pessoas, e, quando possuem três camadas, conferem alta proteção, se respeitado o distanciamento social. Essas máscaras devem ser usadas por duas a três horas ou substituídas quando ficarem úmidas. A higienização é feita deixando a máscara de molho em água sanitária diluída em água (duas colheres de sopa de água sanitária em um litro de água) por 30 minutos e depois lavando normalmente com sabão. Deixe secar e passe a ferro antes de usar novamente. As máscaras cirúrgicas descartáveis, que podem ser compradas em farmácias, apresentam três camadas e são bastante efetivas para proteção, podendo ser usadas para ir ao mercado, por exemplo. Após duas a três horas, ou antes, se estiver úmida, a máscara deve ser descartada no lixo do banheiro. A máscara mais eficiente é a N95 ou PFF2, produzida com material bem compacto, o que garante uma alta proteção. Essa máscara tem a vantagem de vedar bem o espaço acima do nariz e as laterais do rosto, diminuindo bastante a chance de contaminação. Se você precisa frequentar locais com muitas pessoas, utiliza transporte público em horários de pico ou trabalha na área de saúde, essa máscara é a mais indicada. Essa máscara é reutilizável e não deve ser lavada. Você pode usá-la por duas a três horas e depois deixá-la “descansando” por três dias, para então utilizá-la novamente. Se você precisa frequentar um local com muitas pessoas e não deseja adquirir uma máscara N95 ou PFF2, pode usar duas máscaras, uma cirúrgica descartável e outra de tecido. Isso garante uma proteção extra, mas lembre-se sempre de manter o distanciamento.
Sobre as vacinas, realmente a reinfecção é possível. Entretanto, as vacinas que são usadas no Brasil hoje (Coronavac e Oxford/AstraZeneca) conferem uma alta proteção contra as formas graves e fatais de Covid-19. Alguns estudos evidenciam que essa proteção está entre 80% e 100%, ou seja, a chance de contrair Covid-19 e necessitar de hospitalização diminui muito. Assim, a vacinação é fundamental para que possamos reduzir a pressão no sistema de saúde e fazer com que o vírus pare de circular.

“Há necessidade de usarmos duas máscaras no atual momento da pandemia? Em relação ao material de que são feitas, as de tecido ainda são eficazes?” (Juliana Pinheiro, 36 anos, relações públicas na UFPR, Curitiba-PR)
Cientistas UFPR – Olá, Juliana. As máscaras de tecido podem ser usadas em ambientes abertos, onde não há muitas pessoas, e o ideal é que sejam de tecido bem fechado e com, pelo menos, três camadas, pois isso garante uma maior proteção, se respeitado o distanciamento social. No atual momento da pandemia, recomenda-se o uso de duas máscaras, especialmente se você precisa frequentar um local com muitas pessoas e não deseja adquirir uma máscara N95 ou PFF2. Você pode usar uma máscara cirúrgica descartável e outra de tecido ou duas máscaras de tecido, garantindo uma maior segurança, porém não esqueça de respeitar o distanciamento social.

“Qual a melhor forma de higienizar as máscaras de tecido e também a máscara PFF2?” (Daniela Resende Archanjo, professora da UFPR, Matinhos-PR)
“Como higienizar a máscara N95?” (Paulo Roberto Bartelmebs, 61 anos, aposentado, Passo Fundo-RS)
Cientistas UFPR – As máscaras de tecido devem ser usadas por duas a três horas ou substituídas quando ficarem úmidas. A higienização é feita deixando a máscara de molho em água sanitária diluída em água (duas colheres de sopa de água sanitária em um litro de água) por 30 minutos e depois lavando normalmente com sabão. Deixe secar e passe a ferro antes de usar novamente. A máscara N95 não deve ser lavada. Depois de usá-la, por duas a três horas, deixe-a “descansando” em ambiente arejado por três dias. Após este período, você pode usá-la novamente.

“Vários portais de notícias e outras páginas dedicadas à Covid-19 estão divulgando a importância do uso de máscaras, sobretudo de máscaras PFF2. Eu gostaria de saber em relação à sua higienização, o correto seria deixar ela em repouso em um lugar ventilado e sombreado? E se sim, por quanto tempo, considerando as baixas temperaturas do inverno? Em relação às máscaras cirúrgicas, todas elas vêm com aviso ‘descartáveis’, por qual motivo não posso reutilizar se elas estiverem intactas após um dia de uso, sendo que eu posso reutilizar uma máscara PFF2? Ainda, ouço bastante que é recomendado utilizar máscaras cirúrgicas com máscaras de pano por cima, para uma melhor vedação, essa informação está correta?” (Marcos André Bonini Pires, 22 anos, sou estudante de agronomia, Piracicaba-SP)
Cientistas UFPR – Olá, Marcos. A máscara N95 ou PFF2 não deve ser lavada. Após usá-la por duas a três horas, ela deve ser deixada em local arejado por três dias (72 horas), depois pode ser usada novamente. As máscaras cirúrgicas devem ser usadas por duas a três horas, ou menos tempo, se estiverem úmidas, e devem ser descartadas no lixo. Assim como as máscaras de tecido, que devem ser lavadas após o uso por duas a três horas, essas máscaras descartáveis, como não podem ser lavadas, só devem ser usadas uma única vez. Para aumentar a proteção, é recomendada a utilização de duas máscaras, uma descartável e uma de tecido, especialmente se você precisa frequentar locais com alta circulação de pessoas.

Assista abaixo a um vídeo sobre uso e higienização de máscaras, produção da Agência Escola UFPR na ação Pergunte aos Cientistas:

“Como faço para melhorar a proteção da PFF2? Uso uma máscara cirúrgica por cima ou por baixo, assim a proteção aumenta para 99%? Ou é melhor usar sozinha mesmo? Eu tenho PFF2 Valvulada. Para não contaminar ninguém, o que posso fazer? Pois jogar fora uma máscara tão boa não seria uma opção” (Eliane Américo, 39 anos, orientadora, Valparaíso de Goiás-GO)
Cientistas UFPR – Olá, Eliane. A máscara N95 deve ser usada sozinha, pois ela já garante uma alta proteção, se corretamente ajustada ao rosto. Deve-se evitar a máscara com válvula, pois ela permite a passagem de partículas ao exterior e você pode contaminar outras pessoas se estiver infectada. Após o uso da máscara N95, por duas a três horas, você deve deixá-la em ambiente arejado por três dias e pode reutilizá-la.

“O teste de tentar apagar uma vela com a máscara para ver se ela é eficiente é verdadeiro?” (Valéria Aparecida Nogueira, 51 anos, cerimonialista, Curitiba-PR)
Cientistas UFPR – Olá, Valéria. Ao tentar apagar uma vela usando máscara, você testa se uma quantidade de ar suficiente para apagar a chama passa pelo tecido. Sabe-se que as máscaras de tecido, para serem efetivas, devem ter pelo menos três camadas e o tecido não deve ter aberturas, como tramas de tricô e crochê. Entretanto, nenhuma máscara garante 100% de proteção, por isso recomenda-se, além do seu uso, que seja respeitado o distanciamento social.

“Após pegar Covid, quanto tempo tem que esperar para tomar a vacina? Depois que a população adulta for vacinada, quanto tempo ainda será necessário usar máscaras? A vacina da Covid será anual como a vacina da gripe?” (Luciana Emilia Machado Garcia, 40 anos, engenheira civil e servidora UFPR, Curitiba-PR)
“Quanto tempo depois de ter a Covid-19 devo esperar para tomar a vacina tanto da Covid quanto a da gripe?” (Eliane Lopes da Silva, técnica de laboratório, Curitiba-PR)
Cientistas UFPR – Oi, Luciana e Eliane. Após contrair Covid-19, o Ministério da Saúde recomenda que se aguarde 30 dias para tomar a vacina. Isso porque, como os sintomas da Covid-19 podem perdurar por algumas semanas, se você tomar a vacina antes do período de 30 dias, pode ainda ter sintomas e confundir com possíveis efeitos adversos da vacina. Como as vacinas são muito recentes, o monitoramento dos efeitos adversos deve ser bem cuidadoso. Após receber a segunda dose da vacina contra Covid-19, aguarde, pelo menos, 14 dias para tomar a vacina contra a gripe.
O relaxamento das medidas de prevenção, como uso de máscaras e distanciamento social, somente poderá acontecer quando uma grande parte da população elegível tiver recebido as duas doses da vacina. Estima-se que a imunidade coletiva será atingida quando 70% a 80% da população estiver vacinada.
O vírus influenza (vírus da gripe) apresenta características que permitem que sofra mutações com alta frequência, o que leva ao surgimento de novas cepas. Deste modo, a vacina da gripe é atualizada à medida que novas variantes surgem e por isso precisamos tomar a vacina todos os anos, para garantir que nos tornemos imunes às cepas em circulação. Os coronavírus já conhecidos têm frequência de mutação menor que a observada no vírus influenza, portanto seria esperado que as novas variantes do SARS-CoV-2 não surgissem com tanta facilidade. Porém, neste momento mais crítico da pandemia, observamos uma multiplicação descontrolada do vírus e, quanto mais ele multiplica, maior a chance de surgirem novas variantes. Como a Covid-19 é uma doença nova, ainda não temos dados suficientes sobre o SARS-CoV-2 que nos permitam determinar o intervalo entre as vacinações.

“Gostaria de saber se existe possibilidade de uma pessoa não poder tomar a vacina contra a Covid-19 devido à baixa imunidade?” (Marcela Biehl, 48 anos, servidora pública, Curitiba-PR)
Cientistas UFPR – Olá, Marcela. Algumas situações podem levar à queda de imunidade, como doenças autoimunes e transplantes. É importante consultar um médico para saber se há contraindicação para o uso da vacina contra Covid-19. Somente o médico poderá avaliar se os benefícios da vacina superam os riscos, em cada caso.

“Sabemos que a vacina Coronavac tem uma eficácia baixa comparada às demais, então gostaria de saber se existe alguma contraindicação de tomar a Coronavac agora e no futuro tomar a vacina da Moderna, por exemplo?” (Maria Milena Tegon Figueira, 23 anos, professora, Toledo-PR)
Cientistas UFPR – Olá, Maria. No momento, temos no Brasil apenas duas vacinas: a Coronavac e a Oxford/AstraZeneca. Ambas são aplicadas em duas doses, com intervalos de 21 dias e 90 dias, respectivamente. É importante que, se você tomou a primeira dose da Coronavac, a segunda dose seja da mesma vacina, ou a proteção não será atingida.
Ainda não sabemos como será o esquema vacinal contra Covid-19 no futuro, qual será o intervalo entre as vacinações, pois não sabemos o quanto a imunidade será duradoura. Além disso, há várias vacinas ainda em desenvolvimento. Deste modo, à medida que a doença seja mais bem compreendida, assim como a duração da imunidade conferida pelas vacinas em uso mundialmente, possivelmente um plano vacinal será elaborado, de modo a impedir a circulação do SARS-CoV-2.

“Gostaria de saber se após os 15 dias da segunda dose da vacina Coronavac é aconselhável fazer algum teste para verificar se realmente adquiri os anticorpos para fins de imunização. Caso a resposta seja afirmativa, gentileza informar qual o teste adequado” (Angela Trece Lopes, 72 anos, aposentada, Belo Horizonte-MG)
Cientistas UFPR – Olá, Angela. Os estudos indicam que há produção de anticorpos contra o SARS-Cov-2 após a vacinação, assim não há necessidade de fazer um teste para confirmar, mesmo porque as medidas de prevenção devem ser mantidas. Mesmo imunizada, ainda é possível contrair a Covid-19 em formas assintomática ou leve e, em consequência, transmitir a doença. Portanto, deve-se continuar a usar máscara, manter o distanciamento social e fazer a higienização das mãos com frequência, até que, pelo menos, 70% a 80% da população elegível seja vacinada e a imunidade coletiva seja atendida.
Se você desejar, é possível fazer um teste sorológico para detectar anticorpos IgG contra os antígenos N e S (proteínas) do SARS-CoV-2. Esse teste deve ser solicitado por um médico e realizado 30 dias após o recebimento da segunda dose. No caso da vacina Coronavac, os anticorpos produzidos se ligam aos antígenos N e S do vírus, enquanto a vacina Oxford/AstraZeneca leva à produção de anticorpos que reconhecem o antígeno S apenas.

“Eu e meu esposo somos Soropositivos, em qual grupo a gente se encaixa para tomar a vacina da Covid-19? Tenho 29 anos e ele, 40.” (Juliana Elisandra da Silva, 29 anos, monitora de atendimento, Curitiba-PR)
Cientistas UFPR – Oi, Juliana. O Ministério da Saúde incluiu pessoas vivendo com HIV (PVHIV), maiores de 18 anos e com contagem de linfócitos T CD4 inferior a 350 células/mm3 no grupo prioritário no Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra Covid-19. Essa inclusão tem como objetivo priorizar as pessoas com imunossupressão, pois quanto menor a contagem de linfócitos T CD4, maior o risco de desenvolvimento de doenças. PVHIV com boa adesão ao tratamento antirretroviral e carga viral indetectável podem nem chegar aos níveis de imunossupressão. Para receber a vacina contra Covid-19, a pessoa deve apresentar o último exame de contagem de LT-CD4.
PVHIV com LT-CD4 maior que 350 células/mm3, que façam parte dos grupos prioritários por outros motivos, como idosos e profissionais de saúde, devem seguir o critério da fase prioritária de vacinação. Para mais informações, consulte este link.

“Meu pai tem 74 anos e é portador de miastenia gravis, queria saber: ele pode tomar a vacina contra o corona?” (Silmara Aparecida Princival Conque, 40 anos, professora, São José dos Pinhais-PR)
Cientistas UFPR – Olá, Silmara. Os portadores de miastenia gravis, uma doença autoimune, são, por essa razão, considerados do grupo de risco para Covid-19, quando apresentam sintomas e fazem uso de terapias com corticoides e imunossupressores. Como essas terapias diminuem a imunidade, ainda não se sabe se podem influenciar na efetividade da vacina. Entretanto, a Associação Brasileira de Miastenia Gravis recomenda que os portadores tomem a vacina. É importante consultar um médico, para que sejam avaliadas as indicações para a vacinação contra Covid-19 em casos específicos.

“Tenho uma dúvida em relação à vacinação: meu filho tem 16 anos e faz tratamento para o pulmão desde bebê. Gostaria de saber se ele poderá ser vacinado quando chegar a vez das pessoas com comorbidades” (Lucia Helena Lisboa, 41 anos, bióloga e artesã, Curitiba-PR)
Cientistas UFPR – Olá, Lucia Helena. Por enquanto, o Ministério da Saúde não recomenda a vacinação de menores de 18 anos. As vacinas em uso no Brasil ainda não têm dados suficientes sobre a eficácia e segurança nos grupos com idade inferior a 18 anos.

“A vacina da Covid-19 é como a vacina da gripe, ou seja, eficaz apenas para alguns tipos de vírus, já que existe mutação constante?” (Keila Corrêa Bittencourt, 36 anos, economista e auxiliar de serviços escolares na Prefeitura de Curitiba, Curitiba-PR)
Cientistas UFPR – Olá, Keila. O vírus influenza (vírus da gripe) apresenta características que permitem que sofra mutações com alta frequência, o que leva ao surgimento de novas cepas. Desse modo, a vacina da gripe é atualizada à medida que novas variantes surgem e, por isso, precisamos tomar a vacina todos os anos, para garantir que nos tornemos imunes às cepas em circulação. Os coronavírus já conhecidos têm frequência de mutação menor que a observada no vírus influenza, portanto seria esperado que as novas variantes do SARS-CoV-2 não surgissem com tanta facilidade. Porém, neste momento mais crítico da pandemia, observamos uma multiplicação descontrolada do vírus e, quanto mais ele multiplica, maior a chance de surgirem novas variantes. Como a Covid-19 é uma doença nova, ainda não temos dados suficientes sobre o SARS-CoV-2 que nos permitam determinar o intervalo entre as vacinações.

“Li um estudo de um pesquisador que estaria pesquisando a eficácia (pelo menos até agora temporária) da vacina tríplice viral. Então, me dirigi a um posto de saúde aqui do Rio de Janeiro e tomei a tríplice viral, para ter pelo menos alguma defesa mesmo que temporária até chegar o momento de tomar a vacina da Covid. No posto que eu tomei a dose, eu fiquei com a sensação de que tomei vacina de vento. Depois de uns quatro dias, eu levei minha esposa em outro posto para ela tomar a mesma vacina. Então, tomei novamente a tríplice viral. Aqui no Rio de Janeiro estão forçando as crianças a voltarem para as escolas, acho arriscado, pois as variantes estão contaminando e matando jovens e crianças. Assim, estou pretendendo vacinar meus dois filhos (13 e 17 anos) com a tríplice viral, para dar algum tipo de proteção. Gostaria de saber as últimas notícias sobre as pesquisas acerca dessa vacina, a tríplice viral” (Cláudio Rodrigues dos Santos, 59 anos, Rio de Janeiro-RJ)
Cientistas UFPR – Olá, Cláudio. A vacina tríplice viral confere proteção contra sarampo, rubéola e caxumba. Estudos realizados nos Estados Unidos e na Universidade Federal de Santa Catarina sugerem que essa vacina poderia estimular o sistema imune, gerando uma imunidade inata inespecífica, a qual levaria à proteção contra formas graves de outras doenças, entre elas a Covid-19.
Entretanto, os detalhes desses estudos não são conclusivos e a Sociedade Brasileira de Imunizações não recomenda o uso da vacina tríplice viral contra Covid-19. Ainda é importante ressaltar que essa vacina não substitui, de forma alguma, as vacinas contra Covid-19, não devendo ser usada como uma forma de tratamento precoce. Para mais esclarecimentos, consulte o site da Sociedade Brasileira de Imunizações.

“Como a China se livrou do coronavírus se lá não houve vacinação em massa? Pelos meios de comunicação, ficamos sabendo que desde abril de 2020 não há relatos de novos casos. Por que os chineses não tomaram a vacina? Como e qual o segredo de ninguém pegar o vírus?” (Maria Aparecida Hanek, 64 anos, aposentada, Matinhos-PR)
Cientistas UFPR – Olá, Maria. No início da pandemia, a cidade de Wuhan, o epicentro da Covid-19, com 11 milhões de habitantes, foi isolada do mundo exterior, com todos os voos, trens e ônibus cancelados e as entradas das rodovias bloqueadas. Dentro da cidade, por mais de dois meses, o transporte público foi suspenso, empresas fechadas e milhões de residentes confinados em suas casas, sem permissão nem para sair para fazer compras. Esse severo lockdown controlou a disseminação do vírus.
Atualmente, a China também apresenta novos casos, do mesmo modo que o restante do mundo. Segundo os dados oficiais divulgados, possui níveis mais baixos da doença que outros países como o Brasil, que tem atualmente um dos patamares mais elevados de contaminação e mortalidade do mundo. Segundo o site Statista.com, a China apresenta mais de 102 mil casos e 4.800 mortes. No entanto, há muita desconfiança por parte de cientistas e jornalistas do mundo sobre esses dados oficiais. O governo chinês é pouco transparente na divulgação de dados do país, e especialistas acreditam que houve subnotificação de infecções durante o auge do surto em Wuhan, estimando que os casos sejam de três a dez vezes maiores, bem como pode haver subnotificação dos casos atuais.
Quanto à vacina, dados divulgados mostram que até meados de abril a China aplicou 212 milhões de doses, e pretende vacinar 70-80% de sua população (estimada em 1,4 bilhões de pessoas) entre o final deste ano e meados de 2022. Os imunizantes utilizados na China são da Sinopharm, que desenvolveu duas vacinas diferentes, e da Sinovac Biotech, que produz a Coronavac, a mesma utilizada no Brasil.

“Por gentileza, tenho uma dúvida: aqui em casa temos dúvidas sobre pedir pizza por delivery. É possível a pizza ser contaminada? Pois sabemos sobre as embalagens que devem ser limpas, mas e os alimentos quentes?” (Marcelo Luiz Devitte, 43 anos, auxiliar administrativo, Goiânia-GO)
“Pensando no contágio pelo vírus, através de um alimento que pedimos na padaria ou delivery, que pode chegar em minha casa com o vírus, pensei em colocar o alimento no microondas por um tempo que exterminasse o vírus. Poderiam me dizer se já tem essa resposta comprovada?” (Wagner Gomes, 64 anos, aposentado, Ribeirão Preto-SP)
“Ganhei doces de Páscoa artesanais faz uma semana e estou com medo de comer, pois não sei se o vírus da Covid pode ser pego nesses tipos de alimentos” (Josiane Aldrighi Lemes, 48 anos, São José dos Pinhais-PR)
Cientistas UFPR – A preocupação com a contaminação em alimentos é legítima e deve estar sempre presente. Essa preocupação deve sempre ser maior quando os alimentos serão consumidos crus ou frios. Trabalhos científicos avaliando a sobrevivência de diversos vírus em alimentos existem e incluem o SARS-Cov1, muito semelhante ao 2, causador da Covid-19. Os resultados mostram que aquecimento, quer seja no microondas ou de outra forma, eliminam o vírus se for em temperatura maior que 56⁰ C. É importante ressaltar que não são os microondas que o eliminam, mas sim o calor.
Infelizmente, isso não pode ser aplicado para as embalagens, uma vez que o aquecimento por microondas requer a presença de água, pois é a sua movimentação que provoca o aquecimento, e as embalagens somente são aquecidas quando o calor dos alimentos é transferido. Portanto, as embalagens devem ser tratadas com maiores cuidados.
A contaminação com o coronavírus através de superfícies contaminadas é menos provável do que a maioria de nós teme, já que requer que o vírus esteja viável na superfície e em quantidades que cheguem até as mucosas da boca, nariz e olhos. Isso significa que é possível, sim, se contaminar através de superfície contaminada, mas é menos provável. O contágio por contato com outras pessoas e ar infectados em ambientes fechados é a forma mais eficiente e frequente. Seguir as recomendações de não colocar as mãos na boca, olhos, nariz e lavá-las periodicamente devem ser suficientes para impedir o contágio por superfícies.
O tempo de sobrevivência do vírus foi bastante estudado em diferentes superfícies, mas não se pode avaliar o quanto essas podem causar contágio em humanos, por razões éticas. Os cuidados com as embalagens é uma forma de prevenir contaminação, uma vez que em algumas situações particulares o contágio pode ocorrer, sim. Um exemplo claro disso são situações em que a embalagem foi manipulada por alguém com Covid-19, cujas mãos podem estar intensamente contaminadas (após espirrar, por exemplo) e promover o contágio. Alimentos que não podem ser aquecidos (como o chocolate artesanal), se estiverem contaminados, devem ter baixa quantidade de vírus se tiverem sido manipulados com o mínimo de cuidados exigido (uso de luvas e máscara), e a quantidade de partículas virais deve ir diminuindo conforme o tempo passa, até ser considerada irrelevante. É importante também ressaltar que o congelamento não elimina o vírus e deve até preservá-lo por mais tempo viável.

“Quais são as probabilidades de contaminação por meio de maçanetas e objetos tocados por um grande número de pessoas, em espaços de convivência compartilhada (condomínios, ambiente de trabalho, escolas etc.)? Temos estudos mais recentes sobre a sobrevivência do vírus em diferentes superfícies? Em geral, nesses locais, a carga viral é menor?” (Luiz Miguel Portella)
Cientistas UFPR – A carga viral nessas superfícies é variável, dependendo de como foram manipuladas. As mãos de pessoas contaminadas com o vírus podem conter grandes quantidades de partículas virais: o vírus não é liberado pela pele, mas as mãos de pessoas com SARS-CoV2 são facilmente contaminadas ao tocar nariz, boca, olhos, urina, fezes etc. A análise de microrganismos presentes em objetos tocados por um grande número de pessoas (estações de transporte, por exemplo) mostra a presença de grande diversidade e quantidade de patógenos e, portanto, SARS-CoV2 também deve estar presente. Consequentemente, a manipulação desses e posterior contato com mucosas de boca, nariz e olhos pode, potencialmente, levar a contaminação. Entretanto, a probabilidade é menor, pois requer que todos estes eventos ocorram. Evitar tocar boca, nariz e olhos é um importante mecanismo de prevenção de contágio. O tempo de sobrevivência em superfícies é de várias horas e até dias, dependendo do material e, portanto, pode ser considerado continuamente contaminado quando o fluxo de pessoas é diário. O uso de máscara, mesmo na ausência de outras pessoas no ambiente, serve como uma barreira que previne o contato das próprias mãos em boca, nariz e potencialmente, lembrança para não tocar os olhos. Estudos detalhados para avaliar probabilidade de contágio são inviáveis, uma vez que não se pode expor intensamente seres humanos. Consequentemente, os dados existentes dependem de relatos de pessoas contaminadas, que podem sofrer de imprecisão ou impressões individuais, tornando-os difíceis de serem considerados definitivos.

“Em piscina (padrão olímpico), o vírus morre ou se desintegra devido ao seu tamanho e proporção da quantidade de água?” (Keila Corrêa Bittencourt, 36 anos, economista e auxiliar de serviços escolares na Prefeitura de Curitiba, Curitiba-PR)
Cientistas UFPR – A sobrevivência do vírus foi avaliada em água corrente e foi constatado que a sobrevivência é bem longa em temperatura ambiente (mais de dez dias a 23⁰C) e pode ser muito longa (mais de 100 dias a 4⁰C). O uso de produtos para controle de propagação de microrganismos (hipoclorito de sódio e outros) deve diminuir drasticamente a sobrevivência do vírus. SARS-CoV2 viável tem sido detectado em água potável (estudo realizado nos Estados Unidos) e também em esgoto, em diversos locais do mundo. O risco de contaminação por esses vírus, entretanto, não pode ser avaliado, devido a questões éticas que impedem a exposição intencional de seres humanos. Portanto, ele permanece ativo em água, mas não é possível confirmar se podemos nos contaminar ao consumir água contendo o vírus nessas quantidades.

“O vírus da Covid-19 pode se manter vivo no braço de uma pessoa que está usando protetor solar?” (Niânia Melo Ferreira, 46 anos, dona de casa, São Luís-MA)
Cientistas UFPR – Apesar de a luz solar ser considerada uma maneira de diminuir a viabilidade viral, o uso de protetor solar não deve afetar significativamente esse efeito. Outros componentes do protetor podem até diminuir a viabilidade viral, uma vez que esses possuem componentes que reprimem o desenvolvimento de microrganismos como forma de preservar por mais tempo o produto. É comum que esses contenham detergentes e outros compostos que destroem a capa viral e o tornem inviável. Apesar desses fatores, em caso de potencial contato com material contaminado, a descontaminação deve ser realizada imediatamente.

“Estou com muita insônia. A neurologista, na consulta online, solicitou que eu faça um exame de polissonografia. Mas neste momento, em que a contaminação está descontrolada, é indicado ou seria melhor deixar pra depois? Não quero me contaminar nem contaminar minha família (filhas e esposo)” (Eliane Américo, 39 anos, orientadora, Valparaíso de Goiás-GO)
Cientistas UFPR – O exame de polissonografia normalmente requer que o paciente pernoite em laboratório equipado, para avaliar o sono durante uma noite completa. Em momento de pandemia, os cuidados com a limpeza do ambiente devem ser redobrados para prevenir contaminação. Tais cuidados são variáveis nos diferentes laboratórios e consequentemente há risco potencial, apesar de baixo, de haver contágio. Procedimentos eletivos devem ser avaliados individualmente e a decisão é muito pessoal. A contaminação por superfícies contaminadas é menos provável do que por contato com pessoas contaminadas. Se tiver confiança nos cuidados que o laboratório apresentar, deve ser seguro realizar o exame.

“Em tempos de pandemia e rodízio no fornecimento de água, não consigo lavar uniformes escolares todos os dias. Tenho feito o seguinte: quando as crianças chegam da escola, eu troco a roupa deles e uso um aparelho de vaporização para higienizar o uniforme e poder usar mais um dia. Esses aparelhos de vaporização matam o vírus que pode estar na roupa?” (Arabella Galvão, 46 anos, professora da UFPR, Curitiba-PR)
Cientistas UFPR – O aquecimento é uma forma eficiente de eliminar o vírus, desde que a temperatura atinja valores maiores do que 60⁰C. Outra medida auxiliar é alternar o uso do uniforme, deixando mais um dia em espera, para ser usado em dias alternados. A carga viral, caso esteja nas roupas, é provavelmente baixa e de baixo risco de contágio. O vapor é, via de regra, mais eficiente do que calor seco na eliminação de microrganismos. Dessa forma, o uso do vaporizador parece uma medida eficaz de assegurar a assepsia dos uniformes.

“Gostaria de saber como ocorre a reinfecção. Tive PCR positivo em 13 de fevereiro e sintomas leves. No dia 26 de março, tive contato com um paciente positivo e tive novamente os sintomas. O SUS não quis refazer o PCR, então fiz um teste de antígeno e deu positivo. O que isso significa? Os médicos não souberam me informar” (Andressa Moraes Dutra, 31 anos, técnica em meio ambiente, Araucária-PR)
Cientistas UFPR – Olá Andressa. Agradecemos sua participação. A reinfecção pelo coronavírus (SARS-COV-2) é uma preocupação atual. Em relação a sua primeira pergunta (como ocorre a reinfecção), a reinfecção viral irá ocorrer do mesmo modo que a primeira infecção. O indivíduo entra em contato com o vírus SARS-COV-2 (fase de contágio) e as partículas virais entram em células e/ou tecidos, para se multiplicarem iniciando o processo infeccioso, levando ao desenvolvimento de sintomas. Para ser caracterizado um caso de reinfecção (suspeito, provável ou confirmado) deve-se considerar as orientações do Ministério da Saúde (MS), em relação ao tempo entre os episódios de infecção, tipos de teste de diagnóstico e sequenciamento genômico (ver abaixo a informação detalhada).
Em relação à sua dúvida sobre o que significa o resultado positivo do teste de antígeno, esse teste detecta proteínas virais, e o resultado positivo indica a presença de componentes virais, ou seja, o vírus estava presente no material coletado. Os testes de antígenos podem permitir o teste frequente e em grande escala da Covid-19 para identificar os indivíduos que estão infectados e assim tomar as medidas necessárias para evitar a disseminação do vírus.
Em relação à sua colocação “Os médicos não souberam me informar”, supomos, sem fazer nenhum julgamento aos profissionais envolvidos, que não puderam esclarecer uma vez que sua situação não apresentou características que poderiam sugerir um caso de suspeita de reinfecção como descrito nas orientações do MS. Do ponto de vista de definição de casos operacionais de reinfecção por Covid-19, o caso suspeito de reinfecção é definido como: “Indivíduo com dois resultados positivos de RT-PCR para o vírus SARS-COV-2, com intervalo igual ou superior a 90 dias entre os dois episódios de infecção respiratória, independente da condição clínica observada nos dois episódios”. Para comprovação da reinfecção (casos confirmados) é necessário o sequenciamento genômico de amostras de material biológico de ambos os episódios, demonstrando assim que se trata de duas infecções diferentes.
Na plataforma “Covid-19 Reinfection-tracker-suspected-cases” há informações sobre a relação dos casos confirmados. Além disso, tem uma lista com casos suspeitos ou prováveis. Casos prováveis se referem àqueles em que as informações detalhadas sugerem uma alta probabilidade de reinfecção. Por exemplo, pacientes com dois episódios distintos de doença e que dados de sequenciamento ainda estão em análise ou não foram completamente realizados. Todos os outros casos são classificados como casos suspeitos.
De acordo com a plataforma “Covid-19 Reinfection-tracker-suspected-cases”, a qual é atualizada diariamente, foram confirmados em todo mundo (na data de 23/04/2021) 70 casos de reinfecção, sendo 14 casos no Brasil e incluindo três mortes (uma delas no Brasil). Existem mais de 36 mil casos suspeitos no mundo (sendo 987 de casos suspeitos no Brasil), e pelo menos 38 outras mortes foram relatadas entre esses casos suspeitos. Acredita-se que o número real seja maior, porém, os dados das pesquisas sobre reinfecção ainda são limitados.

“Gostaria de saber quais medidas de prevenção devemos tomar em relação às pessoas que têm comorbidades e que já pegaram o vírus uma vez, ficando em estado grave” (Selene Pereira Gomes, 24 anos, professora, Araguaína-TO)
Cientistas UFPR – Olá, Selene. Agradecemos sua participação. Em relação ao seu questionamento “quais medidas de prevenção em relação às pessoas que têm comorbidades e que já pegaram o vírus”, pode-se dizer que as medidas de prevenção são as mesmas tanto para as pessoas com comorbidades que não desenvolveram a doença como para àquelas que já desenvolveram. As medidas incluem o uso correto de máscara, higienização adequada das mãos (com água e sabão ou álcool 70%) e objetos pessoais, e manter o distanciamento social para evitar o contágio. Além disso, as vacinas contra a Covid-19 são uma medida de prevenção eficiente, e as pessoas com comorbidades estão incluídas nos grupos prioritários do programa de vacinação.
O seu questionamento é muito relevante, primeiro, porque o desenvolvimento da doença em pessoas com comorbidades pode agravar a situação pré-existente; e segundo, porque mesmo já desenvolvendo a doença há relatos confirmados de reinfecção, apesar de, até o momento, ser considerado raro. Sabemos que a situação atual é muito difícil, porém, dentro das possibilidades, é de extrema importância, especialmente, para pessoas com comorbidades que mantenham a rotina de cuidados com a saúde, optando por hábitos saudáveis e pelo acompanhamento das doenças pré-existentes por profissionais da área da saúde.

“Peguei Covid em dezembro de 2020. Posso pegar de novo quando? Quanto tempo fico imune?”
Cientistas UFPR – Muito obrigada por sua participação. Se você já teve Covid, a resposta para sua primeira pergunta (“posso pegar de novo”) é: sim, você pode pegar novamente (ou seja, ser reinfectada). Há relatos confirmados de casos de reinfecção, apesar de, até o momento, ser considerado um evento raro. Em relação às outras perguntas (“quando poderia pegar e quanto tempo ficaria imune”), os dados atuais ainda são limitados para embasar uma resposta definitiva tanto sobre o tempo para ocorrer uma nova reinfecção quanto sobre a duração da imunidade adquirida após a infecção. Aparentemente, parece ser menos provável uma nova infecção por SARS-CoV2 entre os primeiros três a seis meses após a primeira infecção.
Para tentar esclarecer melhor suas dúvidas, destacamos informações sobre estudos clínicos publicados sobre casos de reinfecção de SARS-CoV-2. Os estudos verificaram que o percentual de risco de reinfecção dentro da população testada foi considerado baixo (menos de 1%) e o risco é influenciado por fatores como memória imunológica adquirida na primeira infecção, idade do paciente e tipo de variante viral.
Exemplificando, observou-se que quando a primeira infecção ocorreu de forma mais branda (ou seja, sintomatologia leve), a memória imunológica (anticorpos) não foi adequada para a proteção e quadros de reinfecção ocorreram com sintomas mais fortes. Verificou-se também uma maior incidência de reinfecção em pacientes com mais de 65 anos comparado com aqueles mais jovens. Além disso, há casos de reinfecção da Covid-19 por cepas diferentes do SARS-CoV-2 confirmados por sequenciamento genômico em vários países do mundo, inclusive no Brasil, sendo que o percentual de reinfecção foi maior quando ocorre com outras cepas virais, contudo ainda sendo considerada uma situação rara.
Em relação à duração da imunidade adquirida após a infecção, estudos mostraram que ocorre uma imunidade a curto prazo de pelo menos nos primeiros três meses após a infecção inicial. Outro estudo com cerca de 12 mil profissionais de saúde demonstrou que pessoas com infecção prévia por SARS-CoV-2 que desenvolveram anticorpos apresentaram, em sua maioria, proteção contra reinfecção nos seis meses seguintes à infecção, sugerindo uma possível imunidade de duração mais longa.
Concluindo, baseando-se nos dados atuais não se pode ter uma resposta clara e definitiva tanto sobre o percentual de taxa de reinfecção quanto sobre a duração da imunidade adquirida após a infecção. Reforçamos, porém, a necessidade de manter as medidas de prevenção como uso correto de máscara, higienização adequada das mãos (com água e sabão ou álcool 70%) e distanciamento social para evitar o contágio, mesmo para quem já desenvolveu a doença. Além disso, as vacinas contra a Covid-19, autorizadas pela Anvisa, são uma medida de prevenção eficiente.

“Bem, já foi constatada a possibilidade de reinfecção pela Covid-19. Contudo, a minha dúvida é do ponto de vista estatístico. Sabe-se, aproximadamente, o percentual daqueles de uma determinada população (vamos pensar no Brasil, por exemplo) que já foi contaminada (pode-se adicionar, probabilisticamente, aqueles que nunca fizeram exame e foram assintomáticos). Atualmente, esse número seria, aproximadamente, de 6% da população (fora os que não estão contabilizados, claro). O número dos reinfectados – de acordo com as informações possíveis, agora, de serem obtidas – é de seis casos até março. Esse número é ridiculamente ínfimo do ponto de vista percentual. Ainda que seja possível a reinfecção (como constatado) não deveria se falar que ela é altamente improvável?” (Robert Rautmann, 50 anos, professor de ensino fundamental, Curitiba-PR)
Cientistas UFPR – Olá, Robert. Agradecemos sua participação. Muito interessante a abordagem da sua pergunta sobre dados estatísticos de casos de reinfecção. A resposta para esclarecer a sua dúvida do ponto de vista estatístico, de acordo com seu raciocínio em que o número apresentado de casos de reinfecção (seis casos até Março/21) comparando com o número estimado de infectados (6% da população brasileira), resultaria em um percentual ridiculamente ínfimo e a resposta para a sua pergunta “Ainda que seja possível a reinfecção (como constatado) não deveria se falar que ela é altamente improvável?”, seria, apesar do percentual calculado, que a reinfecção NÃO é altamente improvável. Na verdade, de acordo com os especialistas da área de virologia, casos de reinfecção já eram esperados para a Covid-19, em razão do conhecimento sobre outros coronavírus, como por exemplo, coronavírus humanos chamados sazonais – 229E, OC43, NL63 e HKU1, que causam o resfriado comum, e os causadores da síndrome respiratória aguda grave – SARS e síndrome respiratória do Oriente Médio – MERS. Além disso, em animais, a reinfecção com coronavírus é comum, com ou sem sintomas da doença. Segundo os especialistas, a reinfecção por coronavírus ocorre devido à imunidade passageira que é pouco protetora entre infecções.
Então, apesar dos dados atuais não fornecerem uma resposta clara e definitiva sobre o percentual de taxa de reinfecção, as pessoas podem ser reinfectadas pelo SARS-Cov-2, causador da Covid-19. É importante comentar que a confirmação dos casos de reinfecção, no Brasil, deve seguir as orientações do Ministério da Saúde. Do ponto de vista de definição de casos operacionais de reinfecção por Covid-19, o caso suspeito de reinfecção é definido como: “Indivíduo com dois resultados positivos de RT-PCR para o vírus SARS-COV-2, com intervalo igual ou superior a 90 dias entre os dois episódios de infecção respiratória, independente da condição clínica observada nos dois episódios”. Para comprovação da reinfecção (casos confirmados) é necessário o sequenciamento genômico de amostras de material biológico de ambos os episódios, demonstrando assim que se trata de duas infecções diferentes.
Na plataforma “Covid-19 Reinfection-tracker-suspected-cases” há informações sobre a relação dos casos confirmados. Além disso, tem uma lista com casos suspeitos ou prováveis. Casos prováveis se refere àqueles em que as informações detalhadas sugerem uma alta probabilidade de reinfecção. Por exemplo, pacientes com dois episódios distintos de doença e que dados de sequenciamento ainda estão em análise ou não foram completamente realizados. Todos os outros casos são classificados como casos suspeitos. De acordo com a plataforma, atualizada diariamente, foram confirmados em todo mundo (na data de 23/04/2021) 70 casos de reinfecção, sendo 14 casos no Brasil e incluindo três mortes (uma delas no Brasil). Existem mais de 36 mil casos suspeitos no mundo (sendo 987 de casos suspeitos no Brasil), e pelo menos 38 outras mortes foram relatadas entre esses casos suspeitos.
Acredita-se que o número real de casos confirmados seja maior, e que essa subnotificação seria explicada, parcialmente, pela dificuldade de confirmar com 100% de certeza esses casos. Os dados das pesquisas sobre reinfecção ainda são limitados, e somente à medida que a pandemia continuar poderemos ter a possibilidade de obter dados com representação estatística suficiente para ter as respostas adequadas.

“Por que é tão difícil produzir medicamentos antivirais?” (Eduardo dos Santos Rossi, 29 anos, cirurgião-dentista, Curitiba-PR)
Cientistas UFPR – Olá, André. Acredito que a principal dificuldade se deve ao fato de os vírus utilizarem nossas células para se multiplicarem. Ou seja, muitos processos envolvidos na infecção viral dependem de funções normais de nossas células; se bloqueamos a infecção, podemos atuar secundariamente nas células normais. Por exemplo, o vírus SARS-Cov-2 utiliza uma protease para clivar a proteína e permitir a entrada na célula. Se bloqueamos esse processo, evitamos a infecção. Mas a protease é uma proteína endógena que tem outra função biológica e o vírus se aproveita disso. O inibidor da protease teria que inibir apenas a reação com a proteína S, e não as outras das quais participa. Encontrar esse inibidor (que seria o antiviral) é difícil. Porém, existem alguns processos específicos dos vírus. Usando também o SARS-CoV-2 como exemplo, o vírus tem uma protease própria (chamada protease 3CL) necessária para o processamento das proteínas virais. Nesse caso, podemos procurar um inibidor específico dessa enzima. Pesquisadores da UFPR estão atrás dessa molécula produzida por fungos ambientais. A Pfizer já identificou uma molécula inibidora que está em fase de teste clínico 1. Certamente outras aparecerão.
O coquetel anti-AIDS tem também um inibidor de protease. Mas só funciona para o vírus HIV. Isso porque o modo de funcionamento dos vírus é muito variável, de forma que um anti-viral eficiente para o HIV não funciona para o SARS-CoV-2. E esse é mais um motivo da dificuldade de se obter antivirais.

“Qual a projeção da pandemia para os próximos meses no Paraná?” (Wilham Klevis de Queiroz, 26 anos, engenheiro civil, Curitiba-PR)
Cientistas UFPR – Olá, Wilham. Essa é uma pergunta muito difícil de responder, porque depende de um grande número de variáveis. O número de reprodução efetiva do vírus ou número de reprodução eficaz (Rt), distanciamento social e uso de máscara são os principais fatores. Atualmente, a taxa de vacinação é um novo e importante fator. Além disso, existem diferentes métodos de predição e cada um tem suas vantagens e desvantagens. Podemos fazer algumas sugestões que você poderá utilizar para tentar acompanhar a pandemia, mas existem muitos outros.
Na UFPR, o Laboratório de Estatística e Geoinformação da Universidade tem acompanhado a pandemia desde o início. Você pode acessar por este link, onde é possível encontrar os valores calculados de Rt e medidas de distanciamento para cidades, estados e países. Você poderá acompanhar o que acontece em cada cidade do Paraná no presente, mas não existe uma projeção para o futuro. No site da empresa Loft Science também é possível encontrar os valores de Rt. É importante dizer que o cálculo de Rt não é algo fácil de ser feito e depende de qual modelo é utilizado. Por isso os números nem sempre coincidem e é importante analisar os dados de diversas fontes. Para previsão futura, o grupo liderado pelo professor Roberto Raittz, da UFPR, utiliza um algoritmo genético para prever o comportamento da pandemia. Você pode encontrar as previsões para Paraná e Brasil neste site.
Já o portal do Institute for Health Metrics and Evaluation, ligado à Universidade de Washington, permite a visualização dos dados e faz previsões de casos e mortes para o mundo todo, inclusive Brasil e Paraná. Particularmente, acho que as previsões desse grupo têm melhorado e vale a pena dar uma olhada. Finalmente, incluo o site do Imperial College of London, que foi a primeira instituição a fazer projeções sobre a pandemia. É importante lembrar que quanto mais longos forem nossos horizontes, mais as previsões erram. Em geral, o acerto é bom para período de até quatro semanas.
Para concluir, faço um comentário sobre sua pergunta especificamente. O Institute for Health Metrics and Evaluation prevê que, no Paraná, estamos num momento crucial em que a pandemia pode se agravar dependendo de como aquelas variáveis que citei acima se comportem. Em particular, a adesão ao uso de máscara por todos (pelo menos 95% em ambientes fechados) e manutenção do distanciamento social nas próximas semanas pode ser crucial para aumentar as chances de que a pandemia no Estado do Paraná seja controlada. Acredito que ainda não estamos vendo o efeito da vacinação na pandemia, já que uma fração muito pequena da população foi vacinada.

“Já existem estudos sobre os motivos que levam algumas pessoas a serem assintomáticas e outras a desenvolverem complicações?” (Rafael Moro, 39 anos, advogado, Curitiba-PR)
Cientistas UFPR – Caro Rafael, já existem vários trabalhos científicos que procuraram identificar fatores genéticos que levam ou não à doença severa. Identificamos pelo menos dois grandes projetos internacionais com esse foco, o Covid Human Genetic Effort e Covid-19 Host Genetics Initiative, mas existem outros. No Brasil, também temos projetos nessa área em andamento. Cito dois exemplos: o projeto “Abordagem genômica para investigar variações genéticas do Sars-CoV-2 (coronavírus) e no hospedeiro humano”, da Rede Genômica Ipec/Paraná, coordenado pelo professor David Livingstone A. Figueiredo da Unicentro de Guarapuava; e outro da USP, coordenado pela professora Mayana Zatz, que tem por objetivo identificar fatores genéticos envolvidos na resistência dos superidosos, ou seja, idosos acima de 80 anos que contraem Covid-19 e se recuperam plenamente.
Esses estudos são muito complexos e os resultados de associação de genes com o fenótipo da doença precisam ser validados funcionalmente. Até agora, não foi identificado um gene específico, mas várias regiões genômicas (loci) que podem estar envolvidas com a severidade ou susceptibilidade à Covid-19. Se você quiser saber um pouco mais pode encontrar em Anastassopoulou e colaboradores, de outubro de 2020, e num curto editorial do New England Journal of Medicine, também de outubro de 2020; um texto menos técnico você pode conferir aqui.
Entre os genes já relacionados com a susceptibilidade estão os codificadores de grupos sanguíneos ABO e até um gene (TLR7) no cromossomo X, que está envolvido na percepção do novo coronavírus e na produção de interferon gama. Esse último resultado poderia ser uma possível explicação do porquê a taxa de mortes de homens é maior que em mulheres, sendo 25% a 50% maior que a das mulheres. Em relação aos grupos sanguíneos, estudos iniciais mostraram que pessoas do grupo O seriam menos susceptíveis à Covid-19. Porém, outros resultados na literatura são conflitantes com essa conclusão, sugerindo que pessoas do grupos A poderiam estar mais protegidas, enquanto os outros grupos populacionais não encontraram nenhum efeito, de forma que é provável que não há uma relação real entre genes determinantes do grupos sanguíneos ABO e Covid-19.
O grupo de genes que parece mais fortemente relacionado com severidade da Covid-19 está localizado no cromossomo 3, em uma região chamada locus 3p21.31. Pelo menos 19 genes já foram mapeados no locus, e os dados indicam que alguns desses genes estão envolvidos na função de diversos tipos de células de defesa, como linfócitos, monócitos e células dendríticas, ou seja, podem estar relacionados com a resposta hiperinflamatória dos casos severos de Covid-19. Variantes genéticas já foram mapeadas nesses genes e os possíveis mecanismos estão sendo desvendados. As indicações de que os genes dessa região estão envolvidos na resposta hiperinflamatória são boas por enquanto.
Uma curiosidade sobre essa região genômica que confere risco para Covid-19 é que foi herdada de Neanderthals há cerca de 50 mil anos. Nem todos temos esses genes, que ocorrem em cerca de 50% do sul da Ásia e 16% da população da Europa.
As referências mencionadas acima podem servir para você começar a ler mais a respeito desse assunto. Em português, indicamos o texto no jornal da USP que foca no envolvimento de nosso sistema imune, que você pode acessar clicando aqui.

“É verdade que o grupo sanguíneo A é mais propenso a contrair o vírus e desenvolver formas graves da doença?” (Claudia Camargo)
“O que tem a ver a questão do tipo sanguíneo com relação ao vírus da Covid 19?” (Rute Yamasaki, 67 anos, assistente social)
Cientistas UFPR – Olá, Claudia e Rute. Além da ligação do grupo sanguíneo com a probabilidade de contrair a Covid não ter sido comprovada, em todos os estudos a diferença observada de susceptibilidade entre pessoas de diferentes grupos não é grande e não pode ser considerado um fator de proteção que isenta do uso de métodos de proteção: uso de máscara, distanciamento social, higiene das mãos e manter ambientes bem arejados.

“Não tenho sintomas, mas acho que estou com Covid. Qual o melhor exame a fazer?” (Luciana Emilia Machado, 40 anos, engenheira civil e servidora UFPR, Curitiba-PR)
Cientistas UFPR- Olá, Luciana. O teste indicado para a Covid-19 é o RT-PCR, até aproximadamente 10-14 dias após o aparecimento do primeiro sintoma (esse período de indicação do teste pode variar, mas há boas chances de que até 14 dias dê positivo, sendo que positividade reduz bastante depois de 10 dias porque quantidade de vírus diminui). Se for assintomático, também é o melhor, mas não é possível saber qual o período adequado. Se você entrou em contato próximo (sem máscara, por 15 minutos ou mais, distância igual ou menor que 1,5 m) com alguém que testou positivo, é bom testar por RT-PCR três a sete dias após o contato, mesmo que não apareça nenhum sintoma. Se o exame for solicitado por médico, o convênio cobre. O teste também pode ser realizado pelo sistema público. O material usado é secreção da nasofaringe coletada com swab ou saliva. Esse é o teste padrão ouro e precisa ser feito em laboratório especializado.
A alternativa é o teste de antígeno, usando o mesmo tipo de amostra, que pode ser realizado em algumas farmácias. É rápido, mas menos sensível. Pode também ser feito o teste sorológico de IgM (testa a doença ativa, ele testa positivo a partir de cinco dias do sintoma até cerca de 15 dias) ou IgG (para quem já teve Covid-19 há mais de 15 dias). Pode ser realizado em farmácias também, mas existem muitas marcas de testes com performance muito variável. Contudo, esses outros testes são menos sensíveis e menos confiáveis. Portanto, a opção ideal é realizar o RT-PCR.

“Tive Covid em novembro de 2020, sou diabética tipo 1. Fiquei muito mal, mas em casa. O problema é que nunca mais consegui controlar minha diabetes, a insulina não trabalha direito. É hiper e hipo, todo dia. Já se tem notícia de a Covid deixar alguma sequela para o controle da diabetes? Porque sinto que às vezes meu corpo não aguenta tantos altos e baixos. Sou casada e tenho três filhos. Todos pegamos Covid na época, meu bebê tinha apenas um mês e meio, o médico disse que não precisava fazer o exame no bebê ou nas crianças, só se piorassem. O bebê, porém, não parava de chorar, vomitava tudo. Mas o médico disse ser refluxo. Depois que passaram nossos sintomas, parei de dar remédio para o refluxo e nunca mais ele incomodou.” (Thalita Paula da Silva Pinto, 37 anos, do lar, Curitiba-PR)
Cientistas UFPR – Prezada Thalita, como portadora de diabetes tipo 1, seu questionamento busca explicação sobre o possível efeito da Covid-19 e o controle glicêmico. São poucos os estudos que relacionam o metabolismo da glicose em pacientes com Covid-19. A viremia (quantidade de vírus) na Covid-19 possivelmente desencadeia condições de maior estresse, com maior liberação de hormônios hiperglicêmicos, por exemplo, glicocorticoides e catecolaminas, levando ao aumento da glicose plasmática e variabilidade anormal da glicemia. Um estudo retrospectivo de Wuhan reportou que cerca de 10% das pessoas com diabetes tipo 2 e Covid-19 sofreram pelo menos um episódio de hipoglicemia (<70 mg/dL ou <3,9 mmol/L).
Pessoas com diabetes têm risco aumentado para infecções severas produzidas por diferentes agentes, incluindo o SARS-CoV-2. Os mecanismos propostos para explicar a associação entre DM e Covid-19 incluem um processo inflamatório exacerbado, alterações na coagulação e na resposta imune e agressão direta do SARS-CoV-2 às células das ilhotas pancreáticas, responsáveis pela regulação glicêmica. No entanto, permanece desconhecido como exatamente as respostas imunes e inflamatórias ocorrem nessas pessoas (diabéticos e com Covid-19), como bem como se a hiper- ou hipoglicemia podem alterar a virulência do SARS-CoV-2 (Covid-19), ou se o próprio vírus interfere com a secreção de insulina ou com o controle glicêmico.
Em síntese, é possível e provável que o vírus da Covid-19 tenha um efeito sobre o controle glicêmico, em especial em diabéticos tipo 1 (deficiência completa de insulina). Como o conhecimento científico sobre as ações do vírus no diabetes é novo, precisamos esperar maior número de estudos, com elevado rigor experimental para consolidar esse conhecimento.
Seria importante que você consultasse seu médico e discutisse com ele uma possível revisão no planejamento medicamentoso/alimentar na tentativa de evitar as “marés glicêmicas”, ou seja, os prejudiciais picos e hiper- e hipoglicemias.

“Os médicos podem indicar o tratamento precoce? Se não podem e receitam, devemos denunciar ou é uma liberdade que o médico tem, uma vez que ele acredita?” (Naotake Fukushima, 52 anos, professor da UFPR, Curitiba-PR)
Cientistas UFPR – Olá, Naotake. Sua pergunta é muito interessante e certamente daria para fazer um seminário a respeito. O médico deve prescrever o tratamento que acha adequado, levando em conta o conhecimento científico atual. O próprio Código de Ética Médica de 2009 é muito claro a respeito. No Capítulo I (Princípios fundamentais), o item V estabelece que “compete ao médico aprimorar continuamente seus conhecimentos e usar o melhor do progresso científico em benefício do paciente”. No Capítulo II (Direitos dos médicos), o item II afirma que é direito do médico “indicar o procedimento adequado ao paciente, observadas as práticas cientificamente reconhecidas e respeitada a legislação vigente”. Assim, o exercício da medicina é sempre pautado pelo conhecimento científico.
Nos casos em que existem um ou mais protocolos cientificamente definidos, a decisão é mais direta, pois, em geral, uma vez diagnosticada a doença, um processo baseado em árvore de decisão permite que o médico, junto ao paciente, escolha o melhor tratamento dentre os protocolos.
Em alguns casos, o médico poderá usar um medicamento que não é indicado para tratamento, uso que é denominado off label. Nesse caso, uma particularidade dos sintomas do paciente, a existência de trabalho científico sobre um novo uso do medicamento ou até uma observação anterior própria podem levar à indicação de um tratamento não usual. Apesar de ser embasado em argumentos científicos, esse procedimento deveria ser exceção e não regra, mesmo porque o desenvolvimento científico em geral produz estudos rapidamente que comprovam ou refutam a eficácia de uso off label. Ele é especialmente justificado para tratamento de doenças para as quais ainda não têm tratamento ou quando tratamento padrão não funciona e o prognóstico para o paciente, se continuar sem tratamento, é muito ruim.
A Covid-19 é uma doença para a qual não existe tratamento. No início o uso de, por exemplo, cloroquina e hidroxicloroquina nos casos graves, hospitalizados, tinha algum embasamento científico, já que em laboratório essas drogas bloqueavam a infecção in vitro e elas são usadas para doenças inflamatórias (artrite reumatóide) e autoimune (lúpus). Uma vez que os estudos foram realizados adequadamente (ou seja, em número estatisticamente adequado de pacientes no estudo, controle com placebo e, principalmente, ensaio duplo cego onde nem o paciente nem a equipe de experimentação sabem se o paciente recebeu placebo ou medicamento), não pode haver mais razão para continuar uso desses medicamentos off label. No caso de cloroquina, hidroxicloroquina e ivermectina, os estudos mostram que não têm efeito na melhora do quadro do paciente. Portanto, o uso deveria ser descontinuado por médicos que observam as práticas científicas. Mas existe um fator complicador: vários estudos realizados sem o devido método científico (rapidamente mencionados acima) são publicados, quase sempre em revistas científicas que também não aplicam uma análise por pares rigorosa aos trabalhos submetidos, que apresentam todo tipo de respostas. Muitos profissionais se justificam utilizando esses trabalhos.
O tratamento precoce com drogas off label é especialmente preocupante, pois além da falta de evidência científica, o paciente não requer tratamento, já que na grande maioria dos casos a Covid-19 é leve ou moderada. Talvez por isso, muitos médicos, sem aplicar o devido método científico e análise estatística, consideram que esses “tratamentos” pelo chamado “kit Covid” funcionam ou, como você diz, acreditam que funcionam. Mais graves são as tentativas de novas formas de administração como nebulização, sem as devidas justificativas científicas, profissionais e considerações éticas.
Em nossa opinião, o uso desses medicamentos no tratamento, precoce ou não, está no limite da ética profissional e talvez seja hora do Conselho Federal de Medicina reavaliar e emitir recomendação baseada em ciência.
Finalmente, gostaríamos de pontuar que a atuação profissional de uma parcela da classe médica sem atentar para o que a ciência diz pode ter origem na formação profissional dada pelas universidades e escolas de medicina. Talvez seja um sinal para nós, professores universitários, e Ministério da Educação, reavaliarmos a formação que estamos dando para nossos jovens.

Para ler mais respostas de pesquisadores sobre a Covid-19, acesse aqui outras reportagens da série Pergunte aos Cientistas

Foto destaque: Rawpixel/Arte por Gabriela Tacla

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