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Ciência nas Olimpíadas: pesquisadores analisam potencial do Brasil com levantamento de dados estratégicos

Instituto de Pesquisa Inteligência Esportiva mostra informações sobre investimentos e trajetória do esporte no país #AgenciaEscolaUFPR

Por Bruno Caron
Edição: Chirlei Kohls

O potencial do Brasil em jogos olímpicos, especificamente agora para as Olimpíadas de Tóquio 2020, é mensurado com o levantamento e análise de dados feito por cientistas do Instituto de Pesquisa Inteligência Esportiva. As informações indicam que desde a criação do Bolsa Atleta, em 2005, foram investidos R$ 89,9 milhões nos atletas da delegação que foi a Tóquio e mais da metade desse valor, R$ 55,1 milhões, foi aplicado apenas no ciclo atual, contabilizado de 2017 a 2021. O estudo ainda mostra que 241 atletas (80% dos 301 convocados) recebem bolsa e 60 (20%) não recebem o investimento – confira mais dados no infográfico abaixo. O instituto de pesquisa reúne cientistas das áreas de Educação Física, Comunicação e Economia.

Com os dados do Inteligência Esportiva, é possível identificar quais atletas têm mais chance de medalha com base no histórico deles. Os pesquisadores verificam os resultados nos últimos três anos de atleta por atleta, mapeiam qual é a marca olímpica e a posição do atleta frente ao ranking mundial. Para as Olimpíadas de Tóquio, que seguem até 8 de agosto, a estimativa é de que os atletas brasileiros conquistem 20 medalhas nas 35 modalidades disputadas.

“Vemos qual é a marca dos atletas ou a classificação frente aos últimos campeonatos mundiais para saber efetivamente a chance ou não, se tem uma marca muito distante da marca mundial e das últimas melhores marcas”, explica Fernando Marinho Mezzadri, um dos criadores e coordenadores do Instituto e pró-reitor de Planejamento, Orçamento e Finanças (Proplan) da UFPR.

A partir dos dados levantados ainda é possível balizar políticas e desenvolver o esporte no país em busca de melhores resultados. “Temos o acompanhamento da quantidade de bolsas, dos valores delas, dos atletas, do treinamento como um todo. No momento que estamos passando, o esporte também está dentro desse contexto social. Por isso a importância do Instituto em acompanhar os atletas que estão indo para as Olimpíadas, mas também as demais dimensões do esporte que fazem parte da cultura da prática esportiva”, conta Mezzadri, que também é professor no Departamento de Educação Física da UFPR.

Os dados do Instituto estão disponíveis em plataformas online de BI (Business Inteligence) que podem ser acessados por qualquer usuário. Atualmente, os dados estão separados em cinco relatórios: Gestão do Esporte nos Estados e Municípios; Bolsa Atleta; Financiamento Esportivo; Jogos Escolares Brasileiros e Painel dos Estados. Os relatórios possibilitam um acesso detalhado aos dados e uma variedade de filtros para pesquisa, de acordo com os interesses buscados.

Estudo da trajetória esportiva para o ouro olímpico

O Instituto Inteligência Esportiva é uma fonte de dados para formulação de políticas públicas para o esporte, mas também é um espaço que possibilita outras pesquisas devido a sua abrangência de informações. Esse é o caso da Pauline Iglesias Vargas, que está terminando sua tese de doutorado pelo Departamento de Educação Física da UFPR com orientação do professor André Mendes Capraro, um dos coordenadores do Inteligência Esportiva.

Pauline investiga os caminhos que levaram atletas da seleção brasileira de ginástica artística masculina até a conquista do ouro olímpico, como o caso do Arthur Zanetti. Com o método de entrevistas, a pesquisadora conversou com quatro atletas da ginástica: Arthur Zanetti, Arthur Nory, Francisco Barreto e Lucas Bittencourt. Dos quatro, apenas Lucas não foi para as Olimpíadas de Tóquio.

“À medida que eu tive esse olhar nessa geração de sucesso da ginástica, eu fui pincelar os resultados e para isso o banco de dados foi a minha primeira busca. Com os dados do [instituto de pesquisa] Inteligência, eu tive acesso aos resultados em competições, as bolsas, patrocínios, clubes que estiveram. Então é uma ferramenta de pesquisa valiosíssima”, relata Pauline.

Pauline avalia que a pesquisa mostrou que o início no esporte não precisa ser tão cedo como diz a literatura, mas percebeu que os atletas vêm de famílias que têm a cultura do esporte muito presente e os pais incentivam os filhos para a prática. Outro fator que se mostrou importante para a formação deles foi um encaminhamento de um profissional da educação física que disse que eles tinham perfil para o esporte.

A infraestrutura para treinamento da ginástica também se mostrou relevante, mas ainda é regionalizada, principalmente no Sul e Sudeste. Essa regionalização é evidenciada pelos dados do Instituto Inteligência Esportiva que mostram que 61% dos atletas brasileiros convocados para as Olimpíadas de Tóquio são da região Sudeste, ou seja, uma região do país concentra mais da metade dos atletas.

Por último, mas não menos importante, o financiamento esportivo se mostrou essencial para o resultado desses atletas. “O Bolsa Atleta se mostrou como a principal fonte de renda deles, principalmente nesse processo de formação, enquanto ainda não tinham patrocínio, era o que sustentava eles durante os treinamentos”, avalia Pauline.

Porém, a pesquisadora observou dois pontos nas falas dos atletas que lhe chamaram a atenção. O primeiro é que a bolsa é meritocrática, ou seja, o atleta primeiro mostra o resultado e depois recebe. “Como é que ele vai ter resultado se ele não tem suporte financeiro para o primeiro passo? Essa é uma uma questão complicada que merece ser repensada”.

O segundo ponto é a falta de uma bolsa para os treinadores. “Os atletas demonstraram muita preocupação com a remuneração dos seus treinadores. Eles falaram que sobem no pódio e aparecem no jornal, mas o treinador é invisível e muitas vezes precisa sair do ginásio e fazer um serviço extra para se manter. Você não imagina que o treinador de um atleta olímpico precisa de uma segunda profissão para garantir o sustento”, complementa Pauline.

Ouça abaixo um boletim Volume UFPR, produção da Agência Escola UFPR em parceria com a rádio UniFM, sobre Olimpíadas e ciência:


Investimento nos atletas

Como mencionado por Pauline, a Bolsa Atleta é a principal fonte de investimento direta no esportista. São seis tipos de bolsa: Pódio, Internacional, Nacional, Olímpica, Atleta de Base e Estudantil, que variam de acordo com o desempenho do atleta e seus resultados em competições nacionais e internacionais. Apenas as duas últimas não contemplam atletas convocados para as Olimpíadas, por serem voltadas para participantes dos Jogos Escolares e atletas jovens. A maior parte dos atletas que foi aos jogos de Tóquio recebe bolsa (80%) e 90% dos competidores receberam bolsa pelo menos uma vez durante a carreira.

Comparando os dados de atletas bolsistas entre o ciclo das Olimpíadas de 2016 do Rio e Tóquio 2020, observa-se um aumento de 2% de atletas mulheres que recebem a bolsa atualmente e um aumento de 19% (Rio 2016) para 23% (Tóquio 2020) dos atletas paraolímpicos bolsistas.

Mosiah Rodrigues é ex-ginasta artístico e foi beneficiado com a bolsa. Ganhador de inúmeras competições, entre elas o Campeonato Sul-Americano, o Campeonato Brasileiro e cinco medalhas nos Jogos Pan-Americanos, sendo uma delas de ouro na barra fixa, conquistada em 2007 durante os jogos no Rio de Janeiro, atualmente ele trabalha com a Bolsa Atleta. Mosiah é coordenador geral do Programa Bolsa Atleta, do Ministério da Cidadania/Secretaria Especial do Esporte, e integra a pasta desde 2014.

Começou a competir com 10 anos e acompanhou o desenvolvimento da ginástica artística no Brasil. Para ele, são vários os fatores que levaram o país a chegar na posição atual – o Brasil já conquistou duas medalhas (ouro e prata) na modalidade nas Olimpíadas de Tóquio com Rebeca Andrade. “A qualificação dos treinadores que absorveram escolas de outros países e criaram uma metodologia própria. A seleção treinar como equipe a partir de 2003, concentrados em um mesmo local. E o crescimento também em representatividade internacional com medalhas em mundiais, copa do mundo, classificação olímpica. Tudo isso me parece que é muito do amadurecimento do sistema brasileiro desportivo”.

Embora esses fatores sejam fundamentais, Mosiah reserva uma atenção especial ao financiamento esportivo. “Isso só é possível com investimento direto no atleta. A compra de equipamentos é muito importante, porque o atleta consegue treinar no mesmo material para competir, nas mesmas condições ou muito próximo daquelas que estão em grandes centros”.

O ex-atleta e coordenador geral do Programa Bolsa Atleta revela o papel da bolsa, que para o atleta, além de dar sustento, garante mais longevidade na prática esportiva. “É um programa já consolidado. A primeira lista foi em 2005 e isso foi bacana, porque vários atletas que antes não conseguiam ter suporte começaram a ter. Vimos não só o resultado melhorar, mas atletas prolongando o seu rendimento porque conseguiram ter um suporte melhor e tiveram a possibilidade de optar por seguir no esporte”, finaliza Mosiah.

O Instituto

O Instituto de Pesquisa Inteligência Esportiva nasceu da vontade de pesquisadores do Departamento de Educação Física da Universidade Federal do Paraná (UFPR), especificamente do grupo de pesquisa Cepels (Centro de Pesquisa em Esporte, Lazer e Sociedade), em agrupar os dados sobre o esporte do país em uma plataforma unificada. O objetivo é que as informações auxiliem os governos nas políticas públicas e tomadas de decisão quando o assunto é o esporte.

“Eu sempre falo que a educação tem o Inep [Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira]; a economia tem o Ipea [Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada]; para geografia e estatística, o IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística]; e o esporte não tinha nenhuma ação específica. Hoje nós temos com o Instituto, que possibilita a construção de dados significativos para políticas públicas do esporte e o próprio desenvolvimento dos atletas frente as Olimpíadas”, explica Mezzadri.

O desenvolvimento da pesquisa acontece desde 2013 com levantamento de dados sobre os atletas do país, porém é há dois anos que isso se formalizou no Instituto. “Ele é fruto do amadurecimento de todo o grupo de pesquisa da UFPR que hoje se coloca como uma grande referência nacional no desenvolvimento e pesquisa nessa área”, relata Mezzadri.

A pesquisa começou com a coleta de dados no Diário Oficial da União e depois foi firmada uma parceria com o então Ministério do Esporte para acesso ao banco de dados da pasta. Hoje, as parcerias também são feitas com estados, municípios, confederações e comitês ligados à causa do esporte. Atualmente nove estados compartilham seus dados, nove estão em avaliação e assinatura do termo de cooperação e seis estão em fase de conversa com o Instituto.

Assista abaixo a um vídeo com uma entrevista sobre o Instituto de Pesquisa Inteligência Esportiva no Volume UFPR Entrevista, parceria da Agência Escola com a rádio UniFM:

Confira nas próximas semanas uma reportagem sobre as políticas públicas do esporte no Brasil a partir de pesquisas do Instituto Inteligência Esportiva.

Foto destaque: Fernando Frazão/Agência Brasil-Rio 2016

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Sobre a Agência Escola UFPR

A Agência Escola UFPR, a AE, é um projeto criado pelo Setor de Artes, Comunicação e Design (SACOD) para conectar ciência e sociedade. Desde 2018, possui uma equipe multidisciplinar de diversas áreas, cursos e programas que colocam em prática a divulgação científica. Para apresentar aos nossos públicos as pesquisas da UFPR, produzimos conteúdos em vários formatos, como matérias, reportagens, podcasts, audiovisuais, eventos e muito mais.

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